Lideranças de organizações de mulheres negras durante o lançamento do manifesto político em Brasília.
(Imagem: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
Organizações de mulheres negras lançaram em Brasília o Manifesto Político das Mulheres Negras do Brasil: O Pacto do Bem Viver e as Eleições 2026, documento dirigido a candidatas, candidatos e futuros governantes com propostas para ampliar a participação política e enfrentar desigualdades raciais e de gênero no país.
O manifesto é coordenado pela Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB) e foi apresentado nesta quarta-feira (26). O texto coloca no centro da agenda temas como reparação histórica, acesso a direitos, combate às violências, saúde, educação, segurança alimentar, justiça climática, cultura e maior presença de mulheres negras em cargos eletivos e espaços de decisão.
Documento propõe Pacto do Bem Viver
A plataforma apresentada pela AMNB adota o chamado Pacto do Bem Viver como referência política. Segundo a organização, a proposta busca colocar justiça, equidade, solidariedade, cuidado e vida digna no centro da formulação de políticas públicas.
O movimento sustenta que mulheres negras não devem ser vistas apenas como destinatárias de políticas voltadas à redução das desigualdades, mas também como formuladoras, gestoras, eleitoras, lideranças comunitárias e candidatas com participação efetiva nas estruturas de poder.
Entre as reivindicações estão a manutenção e ampliação de políticas de ação afirmativa na educação, o enfrentamento ao feminicídio e a outras formas de violência, ampliação do atendimento à saúde, combate ao racismo religioso, segurança alimentar, justiça climática e fortalecimento da cadeia produtiva e criativa da cultura.
Representatividade nas eleições é uma das prioridades
Um dos principais pontos do manifesto é a ampliação da presença de mulheres negras na política institucional. As organizações criticam a baixa representação em cargos eletivos e defendem maior participação nas casas legislativas e no Poder Executivo.
O grupo também questiona a distribuição de recursos partidários e eleitorais e cobra condições mais equilibradas para candidaturas de mulheres negras. Durante o lançamento, as participantes divulgaram a campanha nacional #EuVotoEmNegra, voltada ao incentivo à representatividade política.
Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que foram consideradas 20.560 candidaturas para o cálculo dos percentuais utilizados na destinação de recursos públicos nas Eleições 2026. Desse total, 7.165 são de mulheres, o equivalente a 34,85%.
No recorte citado pela Agência Brasil com base em dados eleitorais, 1.234 candidaturas são de mulheres pretas, equivalentes a 6% do total, enquanto 2.485 são de mulheres pardas, ou 12,2%.
Reparação histórica aparece como eixo central
O manifesto associa parte das desigualdades atuais aos efeitos históricos da escravidão e à ausência de políticas de reparação após a abolição. A AMNB defende que o tema seja incorporado aos programas eleitorais e às políticas públicas dos próximos governos.
Para as organizações, a reparação deve abranger não apenas medidas econômicas, mas também acesso a educação, saúde, território, oportunidades de trabalho, participação política e proteção contra diferentes formas de discriminação.
A coordenadora nacional da Articulação de Mulheres Brasileiras, Jolúzia Batista, afirmou durante o lançamento que o documento pretende funcionar como um conjunto de diretrizes para candidatos e governantes e também como instrumento para cobrança posterior das propostas apresentadas.
Manifesto também aborda ambiente digital e democracia
Outro tema presente no documento é o impacto das plataformas digitais no debate político. Representantes da AMNB afirmam que algoritmos, desinformação, discurso de ódio e concentração de poder nas grandes empresas de tecnologia podem afetar grupos historicamente marginalizados.
A organização usa o conceito de “tecnoautoritarismo” para descrever parte dessas preocupações e defende maior atenção do Estado à garantia de direitos no ambiente digital. Trata-se de uma avaliação política apresentada pelo movimento no manifesto.
O texto também aborda violência nos territórios, atuação de grupos armados, ataques a serviços públicos e dificuldades enfrentadas por populações periféricas e comunidades tradicionais.
Construção intergeracional
O lançamento reuniu mulheres negras de diferentes gerações, entre ativistas históricas, lideranças de meia-idade e jovens. A AMNB afirma que a articulação intergeracional é importante para ampliar a presença de mulheres negras em universidades, organizações sociais, parlamentos e outros espaços de decisão.
Entre as participantes esteve a engenheira ambiental e sanitarista Caiene Reinier Freitas, que destacou a importância da participação de mulheres negras trans e travestis na política e na construção de políticas públicas.
Manifesto entra no debate eleitoral de 2026
A iniciativa ocorre em meio à campanha para as Eleições 2026. O primeiro turno está marcado para 4 de outubro, quando os eleitores escolherão presidente da República, governadores, senadores e deputados federais, estaduais e distritais.
A AMNB pretende usar o manifesto como instrumento de incidência política ao longo do período eleitoral e após a votação, acompanhando compromissos assumidos por candidaturas e governos eleitos.
O documento completo foi disponibilizado pela própria Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras e reúne as propostas que o movimento considera prioritárias para o próximo ciclo político do país.