Joaquin Gonzalez Aleman, representante do Unicef no Brasil, aponta falhas estruturais nos programas de governo dos candidatos.
(Imagem: gerado por IA)
O Brasil enfrenta uma crise silenciosa e brutal dentro de suas próprias fronteiras: a violência sistemática contra suas crianças e adolescentes. Diante de um cenário em que o país registra a alarmante média de seis mortes violentas diárias nessa faixa etária, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) emitiu um duro alerta direcionado aos candidatos à Presidência da República. A entidade cobra que os presidenciáveis deixem de lado discursos genéricos e apresentem planos concretos focados na prevenção, e não apenas na resposta punitiva pós-crime.
A análise técnica promovida por pesquisadores da organização mapeou as propostas de cinco candidaturas de destaque nacional: Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (NOVO) e Renan Santos (MISSÃO). O diagnóstico revela um descompasso estrutural. Embora a segurança pública seja tema recorrente nos palanques, a maioria das plataformas de governo limita-se a prometer o endurecimento de penas ou ações reativas de segurança, falhando em desenhar estratégias que evitem que a agressão chegue ao ambiente doméstico.
O descompasso entre a punição e a prevenção
Segundo o representante do Unicef no Brasil, Joaquin Gonzalez-Aleman, a verdadeira proteção infantojuvenil exige antecipação. Os programas de governo de Flávio Bolsonaro e Romeu Zema, por exemplo, concentram suas forças em medidas punitivas e respostas diretas à criminalidade. No campo oposto, a plataforma de Lula apresenta uma inclinação maior para ações preventivas, enquanto a candidatura de Ronaldo Caiado tenta equilibrar a severidade da investigação criminal com propostas intersetoriais de proteção social. Renan Santos, por sua vez, não trouxe menções explícitas e estruturadas sobre o tema em sua plataforma principal.
Essa disparidade conceitual preocupa a entidade internacional. O Unicef adverte que o combate ao abuso exige o fortalecimento imediato de redes de assistência social, saúde e educação. Apenas focar no sistema prisional e na repressão policial ignora os fatores geradores da violência familiar e comunitária.
Invisibilidade e homogeneização das infâncias
Outro ponto crítico apontado pelo relatório é a tendência dos candidatos de tratar a infância brasileira como um grupo homogêneo. Os planos de governo ignoram solenemente recortes cruciais de raça, gênero, território e deficiência. Na prática, crianças negras e indígenas, historicamente mais expostas aos maiores índices de letalidade e vulnerabilidade, permanecem invisíveis nas propostas analisadas.
Para corrigir essa rota, o Unicef defende a institucionalização da chamada 'parentalidade protetiva'. A proposta consiste em capacitar os agentes públicos que já atuam diretamente nas residências das famílias, como os agentes comunitários de saúde e assistentes sociais. Esses profissionais seriam preparados para orientar pais e cuidadores sobre métodos de educação não violentos, quebrando o ciclo de abusos antes que ele escale para tragédias irreparáveis.
Uma epidemia em números absolutos
A urgência cobrada pela agência da ONU ganha contornos dramáticos diante dos dados do último Anuário de Segurança Pública. Em apenas um ano, o Brasil contabilizou 2.079 homicídios de menores de idade, além de impressionantes 38 mil casos de maus-tratos em ambientes domésticos, número que dobrou em relação ao período anterior. Mais assustador ainda é o registro de 61 mil estupros de vulneráveis cometidos por pessoas conhecidas das vítimas.
A construção de uma Política Nacional de Prevenção de Violências contra Adolescentes é apontada como o único caminho viável para o próximo mandato. Essa política deve transcender a pasta da Justiça e integrar de forma definitiva as áreas de trabalho, emprego, cultura e saúde. O futuro do pacto social brasileiro depende de como o próximo governante lidará com esses indicadores, compreendendo que a segurança de uma nação começa pela salvaguarda de suas salas de estar.