Sede da SBPC em São Paulo; entidade mobiliza cientistas e políticos para as eleições de 2026.
(Imagem: gerado por IA)
À medida que a corrida eleitoral para o pleito de 2026 ganha tração nos bastidores políticos, a comunidade científica brasileira decide se posicionar de forma de estratégica para pautar o debate público. A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) deu início a um movimento de pressão direta sobre os futuros governantes do país, convidando oficialmente os pré-candidatos aos governos estaduais a assumirem compromissos estruturais com o setor de Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I).
Essa articulação ganha relevância imediata porque a descentralização do fomento à pesquisa no Brasil enfrenta profundas assimetrias regionais. Dependendo de quem assumir as máquinas estaduais, bilhões de reais de agências locais de fomento — as Fundações de Amparo à Pesquisa (FAPs) — podem ser direcionados para projetos de transição ecológica e inovação industrial ou contingenciados para cobrir rombos de curto prazo. A SBPC joga luz sobre essa vulnerabilidade ao lançar o Observatório das Eleições 2026.
O gargalo das Fundações de Amparo à Pesquisa nos estados
Historicamente, o financiamento da ciência nacional dependeu fortemente do orçamento federal, via agências como o CNPq e a Finep. Contudo, estados que criaram suas próprias FAPs com repasses garantidos pela constituição local, como São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, conseguiram consolidar polos industriais robustos e reter talentos qualificados. O desafio agora reside em replicar esse modelo nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, onde a pesquisa acadêmica ainda sofre com a escassez de recursos recorrentes.
O questionamento central parte de Francilene Garcia, presidente da SBPC, que sintetiza o desafio que aguarda os novos gestores: saber mobilizar o ecossistema científico já existente para gerar soluções práticas. O Brasil dispõe de uma malha respeitada de universidades públicas, institutos de tecnologia e laboratórios de excelência. No entanto, o gargalo histórico ainda é a transferência desse conhecimento teórico para o setor produtivo e para a formulação de políticas públicas eficientes no combate à fome, doenças endêmicas e degradação ambiental.
As 117 propostas do manifesto 'Vozes da Ciência'
Para instrumentalizar a discussão e evitar promessas vazias nos palanques, a entidade estruturou o caderno de diretrizes intitulado Vozes da Ciência – O Brasil que Queremos. Trata-se de uma plataforma técnica robusta que reúne 117 propostas elaboradas por especialistas de diversos campos acadêmicos. Essas sugestões estão distribuídas em sete eixos prioritários que visam reestruturar a soberania nacional a partir do desenvolvimento tecnológico.
Os eixos englobam desde a criação de políticas de transição energética justa, preservação da biodiversidade e segurança alimentar, até temas complexos de segurança pública baseada em dados, direitos humanos, fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS) e saúde mental nas escolas. O objetivo é integrar a expertise científica diretamente na engrenagem administrativa dos governadores.
Compromissos práticos contra o desmonte institucional
Mais do que apresentar sugestões, o Observatório das Eleições 2026 opera sob uma lógica de cobrança e transparência ativa. Candidatos ao Executivo e ao Legislativo são convidados a assinar o Termo de Compromisso em Defesa da Ciência, da Democracia e da Soberania Nacional. O eleitorado, por sua vez, pode acompanhar no portal da SBPC quais políticos de sua região aceitaram formalizar o acordo.
Mais de 60 postulantes de variados espectros ideológicos já aderiram ao termo. O documento exige a defesa intransigente da autonomia das universidades públicas, a liberdade de pesquisa, e a garantia de financiamento contínuo, blindando o setor contra interferências ideológicas. Esse monitoramento deve se intensificar no segundo semestre de 2026, servindo como uma ferramenta de filtragem para o eleitorado comprometido com o futuro tecnológico e social do país.