Equipe técnica da Secretaria Municipal de Habitação realiza atendimento aos moradores da Vila São José para conferência de documentos.
(Imagem: gerado por IA)
A posse informal de um imóvel traz uma insegurança silenciosa que costuma acompanhar famílias por gerações. Para os moradores da Vila São José (parte velha), esse cenário de incertezas jurídicas e sociais começou a mudar de forma definitiva nesta quarta-feira (2). A Secretaria Municipal de Habitação realizou mais uma etapa do programa de regularização fundiária local, convocando as famílias para a entrega da documentação essencial que viabilizará a emissão dos títulos de propriedade.
Essa ação está amparada pelas diretrizes da Lei Federal nº 13.465/2017, conhecida como a Lei da Reurb (Regularização Fundiária Urbana). Por décadas, bairros periféricos e núcleos históricos expandiram-se sem o devido registro em cartório, o que limitava a cidadania dos moradores e dificultava o planejamento urbano por parte do poder público. Agora, a iniciativa visa corrigir esse passivo histórico e integrar a região formalmente ao mapa do município.
O caminho burocrático até o título de propriedade
Durante o mutirão de atendimento, a equipe técnica da prefeitura recolheu documentos de identificação pessoal, comprovantes de residência antigos e contratos de compra e venda, os chamados "contratos de gaveta". Essa triagem minuciosa serve para comprovar a posse pacífica e mansa dos lotes ao longo dos anos. Cada documento entregue é anexado ao projeto urbanístico e ambiental elaborado anteriormente por topógrafos e engenheiros.
Após a análise jurídica individual de cada caso, a municipalidade emitirá a Certidão de Regularização Fundiária (CRF). Esse documento é o passaporte para o Cartório de Registro de Imóveis, onde será aberta uma matrícula individualizada para cada lote. Para as famílias que se enquadram na modalidade de interesse social (Reurb-S), todo o procedimento é inteiramente gratuito, eliminando as custas cartorárias que costumam inviabilizar o registro privado.
Valorização imobiliária e segurança jurídica
A conquista da escritura vai muito além do aspecto emocional de se tornar, de fato e de direito, dono do próprio lar. Do ponto de vista econômico, a regularização fundiária funciona como um forte indutor de riqueza. Estimativas do mercado imobiliário apontam que um imóvel regularizado pode sofrer uma valorização imediata que oscila entre 30% e 50% de seu valor original.
Sem a documentação oficial, as transações comerciais ocorrem na informalidade, o que deprecia o preço das casas e impede que os proprietários tenham acesso a linhas de crédito bancário voltadas para reforma ou ampliação. Com o registro em mãos, o morador ganha a segurança jurídica necessária para realizar melhorias na estrutura de sua casa, sabendo que aquele patrimônio agora é transmissível por herança legal aos seus filhos e familiares.
Infraestrutura e o resgate da cidadania
Outra consequência imediata da regularização é a obrigação legal do município em universalizar os serviços públicos essenciais na área contemplada. Uma vez que as ruas e os lotes passam a existir oficialmente nos arquivos municipais, as vias ganham nomes formais e as residências recebem numeração oficial, o que permite a criação de Códigos de Endereçamento Postal (CEPs).
Isso facilita o recebimento de correspondências e encomendas e obriga as concessionárias de água, coleta de esgoto e energia elétrica a expandirem e qualificarem suas redes na região. A prefeitura também consegue justificar o investimento de recursos públicos em obras de pavimentação, drenagem de águas pluviais e instalação de iluminação pública eficiente.
Próximos passos do cronograma municipal
Após a conclusão desta fase de recebimento de documentos, os técnicos da Secretaria de Habitação farão o cruzamento de dados para identificar possíveis pendências ou sobreposições de áreas. As famílias que precisarem complementar informações serão notificadas individualmente pelas equipes de assistência social do município.
O processo na Vila São José serve de modelo para outras áreas informais da cidade. A tendência é que novas etapas sejam abertas em bairros vizinhos nos próximos meses, consolidando uma política de habitação focada na regularização do solo urbano e no combate à exclusão socioespacial.