A oposta Tifanny Abreu durante partida pelo Osasco São Cristóvão Saúde, clube que declarou apoio irrestrito à atleta diante de nova regra da CBV.
(Imagem: Osasco - @carol__fotografia)
A comunidade do voleibol nacional enfrenta um de seus momentos mais tensos e polarizados. A Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) anunciou uma mudança drástica em sua política de elegibilidade, determinando que apenas atletas do sexo biológico feminino possam competir nas categorias femininas oficiais do país. A decisão atinge diretamente a oposta Tifanny Abreu, estrela do Osasco São Cristóvão Saúde e símbolo pioneiro da inclusão de mulheres transgênero no esporte brasileiro.
A mudança de rumo da CBV representa uma ruptura com a política anterior, que regulava a participação com base nos limites de testosterona sérica. Agora, a nova diretriz impõe uma barreira biológica intrínseca: a exigência de um resultado negativo para a presença do gene SRY, responsável pelo desenvolvimento das características sexuais masculinas. A medida repercute de forma imediata nos planejamentos táticos dos clubes e acende um debate ético e científico de proporções globais.
A reação de Osasco e a iminente batalha jurídica
O Osasco São Cristóvão Saúde, atual campeão da Superliga feminina na temporada 2024/2025, reagiu rapidamente ao anúncio. O clube paulista, que conta com o talento de Tifanny desde 2021, declarou em nota oficial que foi surpreendido pela decisão da CBV. Segundo a diretoria osasquense, a resolução foi homologada sem qualquer abertura para diálogo ou consulta prévia aos times que disputam a elite do vôlei nacional.
O departamento jurídico do Osasco já foi acionado e trabalha na análise minuciosa do documento técnico da confederação. A equipe estuda recursos administrativos e judiciais para garantir a continuidade da atleta no elenco. O clube fez questão de ressaltar seu apoio incondicional à oposta, indicando que não aceitará passivamente a exclusão de sua jogadora mais emblemática.
Campeonato Paulista sob trégua temporária
Apesar da nova regra pairar como uma ameaça ao futuro de Tifanny, o presente imediato traz um alento técnico. A Federação Paulista de Volleyball (FPV) confirmou que o Campeonato Paulista feminino atual seguirá sem alterações para a atleta. Como o estadual já havia começado antes da publicação da nova norma da CBV, a FPV optou por manter o regulamento de início de torneio.
A federação paulista destacou que as decisões sobre as próximas temporadas serão avaliadas com cautela, após pareceres jurídicos e da área de saúde. Com isso, Tifanny entra em quadra normalmente na estreia do Osasco contra o tradicional Pinheiros, no Ginásio José Liberatti, em Osasco. O confronto esportivo, no entanto, carrega agora uma carga política e social inegável.
O alinhamento internacional e a sombra do STF
Para justificar o novo protocolo, a CBV afirma que a decisão alinha o esporte nacional aos novos parâmetros do Comitê Olímpico Internacional (COI) e da Federação Internacional de Voleibol (FIVB). Ambas as organizações vêm endurecendo suas políticas de elegibilidade de gênero nos últimos anos, priorizando a segurança biológica e a isonomia de desempenho, em detrimento do modelo baseado apenas na supressão hormonal.
Contudo, a disputa esportiva deve esbarrar na jurisprudência brasileira. Em fevereiro deste ano, a ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal (STF), garantiu a participação de Tifanny na Copa Brasil após uma tentativa de veto local em Londrina, no Paraná. A concessão da liminar demonstrou que a Suprema Corte tende a analisar o tema sob a ótica dos direitos fundamentais e da dignidade humana.
A vigência da nova política está prevista para as próximas edições da Superliga (Séries A e B), Supercopa, Copa Brasil e o Circuito Brasileiro de vôlei de praia a partir de 2027. O desfecho dessa queda de braço definirá não apenas o futuro profissional de Tifanny Abreu, mas também consolidará as regras de inclusão ou exclusão de atletas trans em todo o cenário esportivo de alta performance no Brasil.