A seleção brasileira de ginástica rítmica celebra o topo do pódio com medalhas de ouro inéditas no Mundial de Frankfurt.
(Imagem: MeloGym/CBG)
O esporte brasileiro acaba de testemunhar um dos seus capítulos mais gloriosos e improváveis. Em Frankfurt, na Alemanha, a seleção brasileira de ginástica rítmica rompeu barreiras históricas ao conquistar duas medalhas de ouro inéditas no Campeonato Mundial da modalidade. O feito consolida o país na elite absoluta de um esporte tradicionalmente dominado por nações europeias e asiáticas.
Sob o comando da técnica Camila Ferezin, o conjunto nacional alcançou o topo do pódio em duas finais distintas. A primeira consagração veio na prova de cinco bolas, seguida por um espetáculo na série mista, composta por três arcos e duas maças. A performance impecável das brasileiras exigiu precisão milimétrica e arrancou aplausos calorosos do público alemão.
O sexteto de ouro, apelidado carinhosamente de "As Leoas", é fruto de uma verdadeira integração nacional. A equipe é composta pela paulista Nicole Pírcio, a capixaba Sofia Madeira, as paranaenses Julia Kurunczi e Mariana Gonçalves, a amazonense Maria Paula Caminha e a capitã alagoana Maria Eduarda Arakaki. Essa sinergia regional culminou em apresentações que beiraram a perfeição técnica e artística.
Derrubando gigantes no tapete de Frankfurt
Na final de cinco bolas, as brasileiras executaram sua coreografia ao som de uma versão sofisticada de Feeling Good, interpretada por Michael Bublé. Sem cometer erros de sincronia ou controle de aparelho, a equipe atingiu a nota expressiva de 29.450. Essa pontuação superou o recorde anterior estabelecido pelo próprio grupo no Campeonato Pan-Americano do Rio de Janeiro.
O impacto desse resultado transcende os números. Ao garantir o ouro, o Brasil superou as duas últimas campeãs olímpicas da modalidade: a China, que ficou com a prata ao somar 28.900, e a Bulgária, tradicional potência que assegurou o bronze com 28.400. É a primeira vez na história que uma nação das Américas conquista o lugar mais alto do pódio nessa prova específica em um Mundial.
A avaliação dos juízes na ginástica rítmica é extremamente rigorosa e subdividida em três grandes pilares: o grau de dificuldade corporal e de aparelhos, a precisão na execução e a composição artística. Conseguir uma nota tão alta diante de bancas tradicionalmente conservadoras mostra que o Brasil passou a ditar o padrão de excelência internacional.
A consagração definitiva com Lady Gaga
Poucas horas após o primeiro triunfo, as ginastas brasileiras retornaram ao tablado com o desafio de manter a concentração elevada. Na série mista, utilizando três arcos e duas maças, o conjunto apresentou-se ao som eletrizante de Abracadabra, sucesso de Lady Gaga. A coreografia exigente, repleta de lançamentos de alto risco e colaborações dinâmicas, levantou o ginásio.
A resposta dos juízes foi outra nota estrondosa de 29.450. O desempenho superou a Espanha, que havia conquistado o título geral no dia anterior e terminou com a prata (29.050), e a Bulgária, novamente bronze (28.750). Com duas apresentações impecáveis no mesmo dia, as Leoas dissiparam qualquer dúvida sobre a legitimidade de seu reinado.
De azarões à elite: a revolução silenciosa da ginástica brasileira
O sucesso atual é o ápice de um planejamento de longo prazo estruturado pela Confederação Brasileira de Ginástica (CBG). Há alguns anos, a seleção brasileira figurava em uma modesta 26ª posição no ranking mundial, enfrentando dificuldades extremas para obter apoio financeiro e visibilidade. O cenário mudou com investimentos em intercâmbios técnicos e na centralização dos treinamentos em Aracaju.
A técnica Camila Ferezin relembrou a trajetória de sacrifícios que pavimentou o caminho até o topo. Segundo a treinadora, o grupo precisou aprender a acreditar no próprio potencial antes de competir de igual para igual com as potências tradicionais do Leste Europeu. O ouro em Frankfurt é a consagração de anos marcados por renúncias diárias, lágrimas e um nível de disciplina implacável.
Com a recente conquista da medalha de bronze que carimbou a vaga para os Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028, a equipe agora entra em um novo ciclo de preparação. O Brasil deixa de ser uma surpresa agradável no cenário esportivo para assumir a incômoda, porém merecida, posição de alvo a ser batido pelas principais potências do planeta.