Sede do Instituto Rio Metrópole, órgão estadual fluminense que virou alvo de investigação por desvios milionários de recursos públicos.
(Imagem: Fernando Frazão/Agência Brasil)
O governo do Estado do Rio de Janeiro promoveu uma verdadeira devassa administrativa na estrutura do Instituto Rio Metrópole (IRM). Em ato oficial publicado nesta quarta-feira (22), a gestão estadual exonerou 30 servidores ocupantes de cargos comissionados e reestruturou a linha de comando da autarquia, que se encontra no centro de um escândalo bilionário de desvios de verbas públicas.
A resposta drástica do Executivo ocorre em uma tentativa de conter o desgaste político e operacional gerado pela operação do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ), deflagrada no início do mês. O órgão estima que o esquema criminoso tenha drenado cerca de R$ 80 milhões de contratos vitais de saneamento básico, habitação e mobilidade urbana.
O coração do esquema e a queda da cúpula do IRM
As investigações conduzidas pelo MPRJ apontam que o Instituto Rio Metrópole, desenhado originalmente para integrar políticas públicas de municípios fluminenses, foi sequestrado por um grupo de agentes públicos e empresários. A denúncia encaminhada à 1ª Vara Especializada em Organização Criminosa da Capital descreve um sofisticado método de lavagem de dinheiro, fraude em licitações e pagamento de propinas em contratos firmados entre julho de 2022 e maio de 2026.
A operação culminou na prisão de figuras proeminentes do cenário político local. Davi Perini Vermelho, conhecido como "Didê", ex-presidente do IRM, foi detido juntamente com Maurício Silva Knoploch dos Santos, diretor de Planejamento e Projetos e pai do deputado estadual Alexandre Knoploch (PL-RJ). Também acabou preso Franquis Dias Nepomuceno, diretor de Desenvolvimento Metropolitano Integrado e delegado licenciado da Polícia Civil.
Auditoria geral paralisa projetos metropolitanos essenciais
Como primeira medida de contenção, o novo presidente interino do órgão, Roberto Lisandro Leão (que acumula o cargo com a Secretaria de Estado de Governo e o Gabinete de Segurança Institucional), suspendeu todos os pagamentos em andamento. Um grupo de trabalho especial, liderado em conjunto com a Controladoria-Geral do Estado (CGE), foi instaurado para passar um pente-fino em cada contrato ativo.
Esse grupo terá 30 dias para apresentar um diagnóstico detalhado. No entanto, o impacto prático dessa paralisação já preocupa prefeitos da Região Metropolitana do Rio, que dependem das parcerias com o IRM para o andamento de obras de drenagem, saneamento de favelas, tratamento de resíduos sólidos e pavimentação de vias expressas intermunicipais.
Diagnóstico sombrio do Ministério Público
O procurador-geral de Justiça do Rio de Janeiro, Antonio José Campos Moreira, fez um diagnóstico contundente e sem meias-palavras sobre a situação institucional do estado. Segundo Moreira, o caso do IRM não é isolado, mas sim um reflexo de uma "cultura de apropriação criminosa" instalada em diferentes instâncias da administração fluminense.
O procurador-geral apontou que este sequestro de órgãos essenciais por facções de colarinho branco é o fator preponderante para a crise fiscal crônica enfrentada pelo Rio de Janeiro há décadas. Moreira sinalizou, contudo, que a atual transição no comando político estadual, facilitada pela independência entre os poderes sob a tutela temporária do Tribunal de Justiça cria uma janela de oportunidade única para o desmantelamento desses esquemas.
O futuro da autarquia e os desafios da transparência
Com as demissões em massa e a paralisação financeira, o Instituto Rio Metrópole entra em um período de paralisia técnica temporária. Especialistas em administração pública argumentam que a mera substituição de nomes não bastará para blindar a instituição contra futuras fraudes se não houver uma reestruturação profunda nos processos de governança digital e controle interno.
O maior desafio do governo estadual será retomar a execução dos projetos prioritários sem permitir que a urgência das obras sirva de pretexto para novos atropelos legais nas licitações. O desfecho dessa auditoria será o termômetro para medir o real compromisso da administração pública com a higienização dos cofres fluminenses.