O primeiro caso de sarampo em São Paulo em 2026 foi registrado em uma bebê de seis meses não vacinada que viajou à Bolívia.
(Imagem: Tânia Rêgo/Agência Brasil/Arquivo)
Uma bebê de seis meses que esteve na Bolívia em janeiro de 2026 se tornou o primeiro caso confirmado de sarampo no estado de São Paulo neste ano. A criança, que não havia sido vacinada, foi diagnosticada em fevereiro, após exames laboratoriais realizados pela Secretaria de Estado da Saúde paulista. O caso acende um sinal de alerta num momento em que a doença avança de forma acelerada pelo continente americano.
A situação coloca em foco um dos principais desafios da saúde pública: a proteção de crianças menores de um ano, faixa etária que ainda não atingiu a idade recomendada para receber a primeira dose da vacina tríplice viral, normalmente aplicada aos 12 meses. Nesses casos, a melhor proteção é garantir que todos os adultos e crianças ao redor estejam com o esquema vacinal completo.
O contexto epidemiológico que preocupa especialistas
O registro isolado em São Paulo está inserido em um cenário continental alarmante. A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) emitiu um alerta epidemiológico em fevereiro de 2026 após constatar que os casos de sarampo nas Américas cresceram 32 vezes entre 2024 e 2025, saltando de 466 para aproximadamente 15 mil confirmações. Só nas três primeiras semanas de 2026, foram registrados outros 1.031 casos em sete países, um aumento de 43 vezes em relação ao mesmo período do ano anterior.
México, Estados Unidos e Canadá concentraram 92% das notificações no início de 2026. A Bolívia, país de onde a bebê paulistana retornou, também figurou na lista de nações com registros ativos, com 10 casos nas primeiras semanas do ano. A OPAS destacou que a esmagadora maioria dos infectados não havia sido vacinada ou tinha histórico vacinal desconhecido, o que reforça a relação direta entre baixa cobertura imunológica e a disseminação da doença.
Brasil mantém certificação, mas não abaixa a guarda
Apesar do novo registro em 2026, o Brasil segue reconhecido pela OPAS e pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um país livre da circulação endêmica do sarampo. Em 2025, foram confirmados 38 casos importados em todo o território nacional, todos associados a viagens internacionais ou a contato com áreas de baixa cobertura vacinal, sem que nenhum se transformasse em surto. A resposta rápida do Sistema Único de Saúde (SUS) foi apontada como fator determinante para conter a propagação.
Para manter esse status, o Ministério da Saúde intensificou a vacinação especialmente nos estados de fronteira com a Bolívia, o Paraguai e o Uruguai. Em 2025, mais de 24 milhões de doses foram enviadas a todos os estados, e o Brasil doou mais de 640 mil doses à Bolívia como parte de uma estratégia regional de contenção. A cobertura vacinal nacional cresceu, passando de 80,7% para 93,78% na primeira dose e de 57,6% para 78,9% na dose de reforço, ainda abaixo da meta mínima de 95% recomendada pela Sociedade Brasileira de Imunizações.
Quem deve se vacinar e como funciona o calendário
A vacina contra o sarampo integra o Calendário Nacional de Vacinação e é ofertada gratuitamente pelo SUS em todo o país. O esquema padrão prevê duas doses da tríplice viral, sendo a primeira aos 12 meses e a segunda aos 15 meses de idade. Para crianças de 6 a 11 meses que vivem em regiões de fronteira ou de alto risco epidemiológico, existe a chamada "dose zero", aplicada como medida adicional de proteção, sem substituir as doses regulares.
Para além da infância, o sarampo também representa risco para adultos que não completaram o esquema vacinal. As recomendações são:
- Crianças de 12 meses: primeira dose da tríplice viral
- Crianças de 15 meses: segunda dose da tríplice viral
- Pessoas entre 5 e 29 anos: duas doses com intervalo mínimo de 30 dias, caso não tenham sido vacinadas
- Pessoas entre 30 e 59 anos: uma dose de reforço
- Crianças de 6 a 11 meses em regiões de risco: dose zero, sem substituir o esquema regular
Doença não é "coisa de criança" e pode ser grave
Embora associado historicamente ao público infantil, o sarampo pode afetar qualquer faixa etária e provocar complicações sérias, como pneumonia, encefalite, diarreia intensa e até cegueira, especialmente em pessoas com imunidade comprometida ou desnutridas. Dados da OPAS mostram que, no México, as mortes registradas em 2025 ocorreram em pessoas entre 1 e 54 anos, demonstrando que a vulnerabilidade não se restringe aos bebês.
O vírus se espalha pelo ar por meio de secreções de indivíduos infectados e é altamente contagioso: uma única pessoa infectada pode transmitir a doença a até 18 indivíduos não imunizados. Para criar proteção coletiva eficaz, os especialistas da Fiocruz apontam que pelo menos 95% da população deve estar vacinada. Qualquer pessoa que apresentar febre acompanhada de manchas vermelhas pelo corpo deve procurar imediatamente uma unidade de saúde e informar histórico de viagens recentes.
O risco da Copa do Mundo e o fluxo internacional
O avanço do sarampo nas Américas ganhou ainda mais urgência com a proximidade da Copa do Mundo de 2026, que será realizada nos Estados Unidos, México e Canadá, justamente os três países com maior número de casos no continente. A OPAS emitiu novas diretrizes específicas para vacinação em fevereiro de 2026, considerando o intenso fluxo de turistas e torcedores previsto para o evento. O caso da bebê paulistana é um lembrete de que viagens internacionais, mesmo a destinos próximos, representam um vetor real de importação da doença para o Brasil.