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Saúde

Vacinação contra HPV avança no Brasil e América Latina, mas mortes por câncer de colo do útero ainda preocupam especialistas

25 mar 2026 - 08h31 Joice Gomes   atualizado às 08h33
Vacinação contra HPV avança no Brasil e América Latina, mas mortes por câncer de colo do útero ainda preocupam especialistas A vacinação contra HPV progride na região, mas rastreamento oportunístico e diagnósticos tardios mantêm altas taxas de mortalidade por câncer cervical. (Imagem: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

O Brasil e outros países da América Latina avançam na vacinação contra o papilomavírus humano (HPV), mas as mortes por câncer de colo do útero continuam a preocupar autoridades de saúde. Um estudo publicado em fevereiro na revista The Lancet analisou dados de 35 nações e territórios da região, destacando que, apesar dos progressos, a cobertura vacinal permanece abaixo das metas globais da Organização Mundial da Saúde (OMS).

O HPV, principal causa dessa infecção sexualmente transmissível mais comum no mundo, é responsável por cerca de 99% dos casos de câncer de colo do útero, uma doença considerada altamente prevenível. Na América Latina, as taxas de vacinação variam de 45% a 97%, enquanto no Caribe vão de 2% a 82%, longe do objetivo de 90% para meninas até os 15 anos. No Brasil, a cobertura entre meninas de 9 a 14 anos atingiu 82,83% em 2024, superando a média global, e entre meninos chegou a 67,26%.

Avanços na imunização brasileira

O Ministério da Saúde adotou em 2024 o esquema de dose única para crianças e adolescentes de 9 a 14 anos, ampliando o alcance e facilitando a campanha. Em 2025, o foco se estendeu a jovens de 15 a 19 anos não vacinados, com estratégias como vacinação em escolas e parcerias com o Ministério da Educação. Esses esforços visam cumprir o compromisso com a OMS para eliminar o câncer cervical até 2030, com metas de 90% de vacinação, 70% de rastreamento e 90% de tratamento.

A vacina protege não só contra o câncer de colo do útero, mas também de ânus, pênis, garganta e pescoço, além de verrugas genitais. Flavia Miranda Corrêa, consultora médica da Fundação do Câncer e pesquisadora do Instituto Nacional de Câncer (INCA), afirma que o país está próximo da meta para meninas e enfatiza a importância da imunização de meninos. "Acreditamos que chegaremos lá", disse ela, destacando a gratuidade do imunizante no Calendário Nacional desde 2014.

Desafios no rastreamento e diagnósticos tardios

O principal obstáculo na região é o modelo de rastreamento oportunístico, adotado na maioria dos países, que depende da demanda espontânea das mulheres. Esse sistema é menos eficiente que o organizado, que inclui convocação ativa de mulheres de 25 a 64 anos, busca de ausentes e integração de sistemas para acompanhamento. Flavia Corrêa alerta: "Não adianta rastrear sem garantir diagnóstico e tratamento".

No Brasil, problemas como falta de interoperabilidade entre níveis de atenção – primária, secundária e terciária – levam à perda de pacientes no fluxo de cuidado. Regiões Norte e Nordeste apresentam maiores dificuldades de acesso e qualidade dos exames, contribuindo para diagnósticos em estágios avançados. O INCA estima cerca de 19 mil novos casos anuais para o triênio 2026-2028, com mais de 7 mil mortes em 2024, um aumento de 13,4% em três anos.

Novo teste molecular revoluciona prevenção no SUS

Desde agosto de 2025, o SUS implementa o teste de DNA-HPV, tecnologia 100% nacional desenvolvida pelo Instituto de Biologia Molecular do Paraná em parceria com a Fiocruz. Mais sensível que o Papanicolau, detecta 14 genótipos do vírus antes de lesões visíveis, permitindo rastreamento a cada cinco anos. Inicialmente em 12 estados, a meta é cobertura nacional até dezembro de 2026, beneficiando 7 milhões de mulheres por ano.

O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, destacou a rapidez da implementação, superior a países como Reino Unido e Espanha. O rastreamento organizado agora inclui convite ativo via equipes de Saúde da Família e autocoleta para populações vulneráveis, como mulheres em situação de rua ou com resistência ao exame. Luiz Augusto Maltoni, diretor executivo da Fundação do Câncer, defende a transição para modelos como os da Austrália e Canadá, que reduziram drasticamente a incidência.

Sintomas, prevenção e o Dia de Conscientização

Lesões precursoras podem levar 10 a 20 anos para evoluir ao câncer, ampliando a janela para detecção precoce com alta taxa de cura. Sintomas incluem sangramentos irregulares, após relações ou na menopausa, corrimento persistente e, em fases avançadas, alterações urinárias ou intestinais. Mulheres de 25 a 64 anos devem priorizar exames regulares.

Em 26 de março, celebra-se o Dia de Conscientização do Câncer de Colo do Útero, momento para reforçar a vacinação e rastreamento. A Venezuela é o único país da América Latina sem o imunizante no programa nacional, mas o Brasil lidera avanços regionais.

Metas globais e perspectivas futuras

A estratégia da OMS projeta redução para níveis residuais com integração de vacinação, rastreamento e tratamento. No Brasil, parcerias com sociedades científicas combatem desinformação e impulsionam campanhas. Especialistas como Flavia Corrêa enfatizam a necessidade de sistemas integrados para evitar perdas no tratamento.

  • Cobertura vacinal meninas 9-14 anos: 82,83% (2024)
  • Cobertura meninos 9-14 anos: 67,26% (2024)
  • Novos casos estimados INCA 2026-2028: 19 mil/ano
  • Mortes 2024: 7,5 mil
  • Teste DNA-HPV: intervalo de 5 anos vs. 3 do Papanicolau

Com esses pilares, o Brasil pode transformar o câncer de colo do útero de terceira causa de morte em neoplasia eliminável, salvando milhares de vidas anualmente.

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