Representação editorial dos custos sociais e de saúde relacionados ao jogo problemático e às apostas online.
(Imagem: gerado por IA)
Um estudo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) estima em R$ 30,6 bilhões por ano os custos sociais e de saúde associados aos transtornos relacionados a apostas e jogos de azar no Brasil. O valor chama atenção pela dimensão, mas precisa ser interpretado corretamente: ele não corresponde a uma conta direta do Sistema Único de Saúde nem a despesas efetivamente desembolsadas pelo governo em um único ano.
A estimativa reúne diferentes componentes, como custos de tratamento, perda de produtividade, redução de qualidade de vida e efeitos de problemas de saúde mental relacionados ao jogo. O objetivo é dimensionar o impacto econômico mais amplo do fenômeno.
O que entra na conta
Estudos de custo de doença costumam combinar despesas médicas com perdas indiretas. Quando uma pessoa desenvolve transtorno do jogo, por exemplo, pode precisar de atendimento em saúde mental, afastar-se do trabalho, reduzir produtividade ou apresentar quadros associados de ansiedade e depressão.
Também podem existir impactos sobre familiares, endividamento e conflitos sociais. Nem todos esses efeitos aparecem como gasto orçamentário do SUS, mas têm custo econômico para a sociedade.
Por que o número não deve ser tratado como despesa direta do SUS
A manchete original menciona impacto financeiro “no SUS”, mas o estudo trabalha com conceito mais amplo de custo social e sanitário. Transformar os R$ 30,6 bilhões em uma suposta fatura direta do sistema público seria impreciso.
Parte do valor representa perdas estimadas de bem-estar e produtividade, que são ferramentas usadas em economia da saúde para comparar a dimensão de diferentes problemas, mas não equivalem a dinheiro que necessariamente saiu dos cofres públicos.
Dependência pode vir acompanhada de outros transtornos
O transtorno do jogo pode coexistir com depressão, ansiedade, consumo abusivo de álcool e outras condições. Essa combinação aumenta a complexidade do atendimento porque o tratamento precisa considerar o comportamento de aposta e também os problemas associados.
Em situações graves, endividamento e sensação de perda de controle podem ampliar sofrimento psíquico. Por isso, pesquisadores defendem que políticas de saúde mental e regulação das plataformas sejam pensadas em conjunto.
Expansão das bets aumentou exposição
O mercado de apostas esportivas e jogos online cresceu rapidamente no Brasil nos últimos anos. Publicidade em transmissões esportivas, redes sociais e influenciadores ampliou a visibilidade das marcas e normalizou a prática para uma parcela da população.
Ao mesmo tempo, celulares e pagamentos instantâneos diminuíram o intervalo entre decisão, depósito e aposta. Esse ambiente favorece frequência elevada e pode dificultar que usuários com comportamento problemático interrompam o ciclo.
Prevenção é mais barata do que tratar consequências
O estudo reforça a importância de medidas preventivas, como limites de depósito, mecanismos de autoexclusão, identificação de padrões de risco, restrição de publicidade direcionada a públicos vulneráveis e acesso facilitado a orientação.
Também é importante ampliar a capacidade de profissionais de saúde para reconhecer sinais de transtorno do jogo. O problema pode aparecer inicialmente como ansiedade, insônia, dívida ou conflito familiar sem que a pessoa relate espontaneamente o uso de plataformas de apostas.
Onde buscar ajuda
Quem percebe dificuldade para controlar apostas pode procurar unidades básicas de saúde ou serviços especializados em saúde mental. O atendimento deve ser individualizado e pode envolver psicoterapia, acompanhamento psiquiátrico e suporte para organização financeira e familiar.
Ao estimar custos bilionários, o IEPS não afirma que todo apostador adoecerá. O dado procura mostrar que, quando uma atividade atinge milhões de pessoas, mesmo uma parcela relativamente pequena de casos problemáticos pode produzir impacto relevante sobre saúde, trabalho e renda.