Queda de árvores de grande porte bloqueou vias em Mongaguá após vendaval histórico de julho.
(Imagem: gerado por IA)
A tempestade que varreu a Baixada Santista no final de julho trouxe mais do que destruição imediata para o município de Mongaguá. Com rajadas de vento que atingiram a marca histórica de 90 km/h, a Defesa Civil registrou a queda de 48 árvores em diversas vias públicas. No entanto, o dado mais alarmante desse balanço não está no número absoluto de ocorrências, mas na identidade botânica das árvores caídas: 32 delas pertenciam ao gênero Ficus.
O episódio trouxe à tona um debate urgente entre urbanistas, engenheiros florestais e gestores públicos. A escolha inadequada de espécies para calçadas e praças compromete diretamente a segurança física da população e a integridade da infraestrutura urbana, especialmente diante da escalada de eventos climáticos severos que marcam as estações de transição no Sul e Sudeste do Brasil.
A anatomia do risco urbano
O predomínio do Ficus benjamina nas calçadas brasileiras é resultado de décadas de um plantio sem critérios técnicos ou planejamento ambiental. Conhecida pelo crescimento extremamente rápido, copa densa e folhagem perene, a espécie se tornou a escolha padrão de moradores e gestores no passado, que buscavam sombra rápida para aplacar o calor do asfalto.
Contudo, essa aparente robustez esconde uma fragilidade mecânica severa quando a árvore é submetida a ventos de alta velocidade. O Ficus possui um sistema radicular agressivo, mas essencialmente superficial. Em ambientes costeiros como Mongaguá, onde o solo é predominantemente arenoso e sujeito a rápida saturação de água, essas raízes não conseguem encontrar ancoragem profunda.
Quando as rajadas de vento pressionam a copa frondosa, que atua como uma verdadeira vela de barco, a base cede com facilidade. O resultado é o tombamento completo do vegetal, frequentemente arrancando blocos inteiros de calçadas e danificando a fiação elétrica de alta tensão.
O desafio da resiliência climática no litoral
A Defesa Civil Municipal e especialistas apontam que eventos meteorológicos violentos não podem mais ser tratados como excepcionalidades. Com o aumento da temperatura do Oceano Atlântico, a ciclogênese extratropical e as frentes frias ganham cada vez mais energia ao subir a costa brasileira, provocando ventanias sistematicamente mais destrutivas na Baixada Santista.
Manter árvores exóticas de grande porte sob calçadas estreitas e redes elétricas aéreas representa um passivo de risco constante. O manejo dessas áreas exige que a arborização urbana seja tratada como infraestrutura verde essencial para a drenagem de águas e controle térmico, e não apenas como elemento de paisagismo estético.
Transição necessária: o papel das espécies nativas
O caminho apontado por técnicos para Mongaguá e municípios vizinhos passa pela substituição planejada e gradual dessas árvores invasoras por espécies nativas da Mata Atlântica. Vegetais que evoluíram nas condições locais de vento e solo apresentam maior compatibilidade com as restrições impostas pelo ambiente das cidades.
Árvores de menor porte ou com raízes pivotantes que crescem verticalmente para baixo em busca de sustentação profunda, são as mais indicadas para calçamentos públicos. O ipê-amarelo-da-restinga, a quaresmeira e o manacá-da-serra são alternativas que, além de garantirem segurança mecânica, enriquecem a biodiversidade urbana, atraindo a avifauna local e reduzindo os custos de manutenção e podas drásticas.
Essa reestruturação exige um esforço conjunto entre a Prefeitura de Mongaguá, por meio de sua Secretaria de Meio Ambiente, e a concessionária de energia para criar corredores verdes seguros. O vendaval de julho deixou um aviso nítido: a segurança das cidades diante do novo normal climático depende diretamente das raízes que as sustentam.