General de Exército Kleber Nunes de Vasconcellos, publicou mensagem institucional às tropas do Comando Militar do Leste.
(Imagem: Reprodução/Campos/Sociedade Militar)
Uma mensagem interna de um general do Exército acendeu o sinal de alerta dentro da instituição ao tratar, de forma direta, de desinformação, disputas ideológicas e risco à coesão entre militares. O texto, divulgado às tropas no início de janeiro de 2026, reconhece contratempos recentes e aponta que grupos internos vêm explorando boatos e narrativas distorcidas para criar clima de desconfiança e confronto dentro da Força.
Na prática, o general diz que não se trata mais apenas de ataques externos nas redes sociais, mas de uma tentativa de contaminar o próprio ambiente militar com teorias conspiratórias, ataques pessoais e questionamentos à cadeia de comando. O alerta chega em um momento em que as Forças Armadas ainda lidam com os efeitos da exploração política de militares da ativa e da reserva, inclusive em investigações sobre núcleos de desinformação ligados a atos golpistas.
Para o leitor comum, o recado importa porque mostra que a guerra de narrativas, antes restrita à política e às eleições, já impacta diretamente o coração de uma das instituições mais sensíveis do país. Quando o próprio comando do Exército fala em risco à unidade interna por causa de fake news, o problema deixa de ser abstrato e passa a ter consequência concreta na estabilidade institucional e na segurança do dia a dia.
Desinformação vira problema dentro dos quartéis
O general aponta que a desinformação deixou de ser apenas um fenômeno difuso nas redes e passou a atingir o público interno, com mensagens anônimas, textos apócrifos e campanhas coordenadas para atacar oficiais e decisões de comando. Esse movimento repete o padrão visto em outras áreas da sociedade: conteúdo aparentemente “técnico” ou “patriótico” circula em grupos fechados, sem autoria clara, pedindo “reação” e sem compromisso com fatos verificáveis.
Documentos anteriores do próprio Exército já alertavam que boatos e notícias falsas podem “macular a imagem de pessoas e da instituição” quando consumidos sem qualquer filtro crítico. Estudos internos mostram que a falta de uma cultura de verificação favorece a multiplicação de narrativas manipuladas e ajuda a criar um ambiente de desconfiança, no qual qualquer decisão de comando vira alvo automático de suspeita.
Nos últimos anos, órgãos públicos e tribunais criaram estruturas específicas para combate à desinformação, como centros integrados e sistemas de alerta voltados às eleições, o que evidencia que o tema é tratado hoje como questão de segurança democrática. O que a carta do general faz é trazer esse debate para dentro dos quartéis, reconhecendo que a tropa não está isolada da mesma lógica de radicalização que atinge o restante da sociedade.
Risco à coesão e à disciplina preocupa comando
Um dos pontos centrais do texto é o risco à coesão interna, fundamento histórico da cultura militar. Quando disputas políticas, pessoais ou corporativas passam a ser travadas por meio de dossiês apócrifos, correntes de WhatsApp e campanhas anônimas, a disciplina, que depende de confiança vertical e horizontal, começa a ser corroída por dentro.
O general admite a existência de contratempos e tensões recentes, mas frisa que eventuais divergências devem ser tratadas pelos canais institucionais, e não por vazamentos seletivos ou ataques disfarçados de “denúncias patrióticas”. O recado mira, sobretudo, grupos que tentam transformar cada decisão administrativa em motivo para acusar oficiais de “traição” ou “fraqueza”, ampliando o clima de caça às bruxas dentro da Força.
Esse tipo de racha interno tem efeito direto na percepção da sociedade sobre a confiabilidade das Forças Armadas. Em regiões com unidades estratégicas, qualquer sinal de divisão ou disputa aberta entre oficiais e praças tende a alimentar boatos locais e aumentar a tensão nas comunidades que convivem diariamente com o Exército.
Polarização política invade o ambiente militar
O texto do general também funciona como freio à tentativa de transformar a instituição em extensão de projetos políticos específicos, tendência que ganhou força nos últimos anos. A participação de militares em articulações investigadas pela Polícia Federal, como núcleos de desinformação e de apoio a ações golpistas, expôs a pressão para arrastar a farda para disputas eleitorais e ideológicas.
Nesse contexto, a carta reforça que a lealdade esperada da tropa é à Constituição e à hierarquia, não a influenciadores, grupos de WhatsApp ou lideranças que falam em nome de uma suposta “vontade popular” sem qualquer mediação institucional. A mensagem é clara: quem aposta em sabotagem interna, divulgação de informações distorcidas e estímulo à desobediência não está defendendo a instituição, mas fragilizando-a no momento em que ela mais precisa preservar credibilidade.
A experiência recente de operações conjuntas, com milhares de militares e agentes civis mobilizados em grandes ações, mostrou como a circulação de fake news pode colocar em xeque o trabalho de equipes inteiras e gerar confusão em campo. Quando essa mesma lógica se volta para dentro do Exército, o risco é que boatos sobre supostas “ordens ilegais” ou “tramas ocultas” passem a ditar o humor da tropa, desviando o foco da missão real.
Por que isso importa para quem está fora da caserna
Para quem não vive o dia a dia militar, o debate pode parecer distante, mas o impacto é direto na vida de qualquer cidadão. Um Exército pressionado por campanhas de desinformação internas tende a ficar mais vulnerável a aventuras políticas, a erros de avaliação em crises e a movimentos de radicalização que extrapolam os muros dos quartéis.
Em diversas cidades Brasil afora, com presença significativa de militares da ativa e da reserva, o reflexo aparece nas conversas de bairro, nas redes locais e até no clima político regional. Quando boatos envolvendo generais, operações ou possíveis “intervenções” começam a circular sem filtro, o resultado é aumento de ansiedade social e descrença nas instituições civis.
Ao trazer o debate à tona e reconhecer publicamente o problema, o comando sinaliza que não pretende tratar a guerra de narrativas como algo menor ou inevitável. O recado, tanto para a tropa quanto para a sociedade, é que preservar a coesão do Exército e blindá-lo da manipulação informacional virou questão de sobrevivência institucional e, por extensão, de estabilidade democrática.
A seguir, será apresentada a carta na íntegra.
Mensagem de fim de ano do Comandante Militar do Leste
Estimados integrantes do Comando Militar do Leste, meus comandados, já próximos ao ocaso do ano de 2025 nos sentimos impulsionados a refletir sobre o caminho percorrido, fazendo um balanço entre os acertos e os erros, os sucessos e os fracassos, as alegrias e as tristezas, as vitórias e as derrotas, pessoais e profissionais, naturais na vida de todos, sem exceções.
É exatamente neste momento que, em geral, percebemos o quanto o saldo é significativamente positivo.
Apesar dos eventuais contratempos e tropeços, seguimos de pé com a clara e reconfortante sensação do dever cumprido.
É hora, pois, de “reajustar o dispositivo”, “recarregar as baterias”, manutenir o material e os equipamentos, conferir e refazer as cautelas, rever os planejamentos, os processos e os projetos, respirar fundo, acalmar o coração, repensar o futuro, reafirmar a crença nos valores, reavaliar as condutas, reforçar as fortalezas, apaziguar os ânimos, amenizar as diferenças e neutralizar as vulnerabilidades, para que, no alvorecer de 2026, possamos olhar com coragem, serenidade e altivez o que teremos pela frente e, a partir de um novo recomeço, “firmar a cadência com o passo certo” em busca dos nossos próximos objetivos.
Por certo, teremos grandes desafios diários a nos provocar. Que sejamos a melhor versão possível de nós, com o mesmo entusiasmo, disposição, motivação, comprometimento, vigor, sabedoria, firmeza, lealdade, equilíbrio, ponderação e muitas outras virtudes que norteiam o nosso comportamento e estabelecem quem somos.
Não permitamos que o desânimo, a desconfiança, a discórdia e a descrença naquilo que é a nossa essência e nos caracteriza como cidadãos-fardados alimentem-se da desinformação, das falsidades, da covardia travestida, da maldade irônica, da ingratidão perversa, das proposituras de cizânias, dos maus agouros e dos agourentos de plantão, que não são muitos, embora barulhentos e persistentes.
Nós somos a força da nossa Força e ela depende de cada um de nós, do soldado ao general, unidos e coesos por um Brasil melhor.
Parabéns e muito obrigado a todos vocês, homens e mulheres, meus valorosos subordinados, discípulos do Duque de Caxias – o Pacificador. Vocês fizeram a diferença … e continuarão a fazer.
Desejo que o Ano Novo resplandeça e reverbere os votos e os sentimentos que compartilhamos no Natal, e que Deus continue a nos abençoar.
Um grande, fraterno e respeitoso abraço do vosso Comandante.
Vamos em frente sem perder a impulsão. Contem comigo.
Brasil!
Quartel-General do CML no PDC, 30 de dezembro de 2025.
Gen Ex Kleber Nunes de Vasconcellos
Cmt do CML