Relatório do Cenipa apontou uma série de irregularidades na aeronave, como peças de carros e uso de fita isolante na manutenção.
(Imagem: Divulgação)
Um relatório do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), órgão ligado à Força Aérea Brasileira (FAB), revelou uma série de irregularidades relacionadas à aeronave experimental anfíbia que caiu no Rio Tietê, em Pereira Barreto, no interior paulista, em fevereiro de 2024. Entre os problemas identificados estavam componentes automotivos instalados no motor, uso de fita isolante na fiação elétrica e operação noturna fora das condições permitidas para aquele tipo de aeronave.
O acidente matou o piloto Rosivaldo Mendes da Silva, então com 38 anos, e deixou o passageiro gravemente ferido. As conclusões divulgadas nesta quinta-feira (15) detalham fatores de risco e falhas de conformidade que cercaram a operação.
Peças de automóveis foram encontradas no motor
Na análise dos destroços, os investigadores identificaram itens não aeronáuticos, incluindo componentes associados a veículos terrestres, como filtro de combustível, elementos do sistema de óleo e mangueiras comuns. Também foi constatada a presença de fita isolante na instalação elétrica.
A utilização desses materiais é um dos pontos de preocupação descritos na investigação, porque equipamentos aeronáuticos exigem controle de compatibilidade, instalação e manutenção conforme as condições de operação. O relatório também registrou que o próprio piloto realizava serviços de manutenção no avião. Ele era proprietário de uma oficina de motocicletas.
É importante distinguir a identificação de irregularidades da determinação da causa mecânica exata do acidente. O Cenipa classificou como indeterminados os aspectos relacionados à manutenção e à aplicação de comandos, devido à degradação da estrutura e à perda de documentos durante o naufrágio.
Piloto não tinha habilitação específica para aeronave anfíbia
A investigação apontou que Rosivaldo possuía licença relacionada a aeronaves terrestres, mas não a habilitação exigida para operar o modelo anfíbio envolvido no acidente. O relatório também menciona um período prolongado em que sua certificação esteve fora da vigência, antes da regularização ocorrida em 2023.
Outro ponto relevante é o horário da operação. A aeronave decolou por volta das 21h50, em período noturno, apesar de as regras aplicáveis à categoria experimental restringirem esse tipo de voo a operações diurnas.
Como aconteceu a queda no Rio Tietê?
O acidente ocorreu em 25 de fevereiro de 2024, após a decolagem do Aeródromo Fazenda São Joaquim, em Pereira Barreto. A aeronave transportava o piloto e um passageiro. Cerca de dez minutos depois da partida, apresentou uma inclinação repentina para a esquerda, perdeu sustentação e atingiu violentamente as águas do Rio Tietê.
O avião ficou submerso. O passageiro foi retirado com vida, mas sofreu ferimentos graves; o piloto morreu. A ocorrência mobilizou equipes de resgate e abriu uma investigação técnica voltada a identificar condições que possam ajudar a evitar acidentes semelhantes.
Qual foi a conclusão do Cenipa?
O fator contribuinte confirmado pelos investigadores foi a falta de atenção às normas e aos regulamentos aplicáveis à operação. A conclusão técnica não atribui, de maneira definitiva, a queda a uma peça automotiva específica ou ao uso de fita isolante, embora essas irregularidades tenham sido registradas.
Essa diferença é fundamental: a presença de componentes inadequados revela problemas de segurança, mas não autoriza afirmar que um determinado item, isoladamente, provocou a perda de controle da aeronave.
O que o caso ensina sobre segurança aérea?
O relatório chama atenção para a importância de qualificação compatível com o tipo de aeronave, cumprimento das limitações operacionais e manutenção documentada. Na aviação, procedimentos de certificação e inspeção servem para reduzir riscos que podem não ser perceptíveis durante um voo aparentemente normal.
Investigações do Cenipa têm finalidade preventiva: buscam compreender fatores relacionados aos acidentes e produzir conhecimento para evitar novas ocorrências. O documento sobre a queda em Pereira Barreto reforça que o descumprimento de requisitos básicos de operação pode aumentar significativamente a exposição de pilotos e passageiros ao perigo.