Tesouro Nacional recompra R$ 43,6 bilhões em títulos públicos em dois dias e realiza maior intervenção em mais de dez anos para frear a volatilidade.
(Imagem: José Cruz/Agência Brasil/Arquivo)
O Tesouro Nacional realizou a maior intervenção no mercado de títulos públicos em mais de dez anos ao recomprar R$ 43,6 bilhões em papéis em apenas dois dias, numa tentativa de reduzir a volatilidade dos juros futuros em meio ao aumento das incertezas externas e domésticas . O movimento ganhou relevância porque ocorreu justamente em uma semana decisiva para a política monetária, com o mercado atento à definição da taxa Selic pelo Comitê de Política Monetária (Copom) .
As operações mais recentes foram feitas na terça-feira, 17 de março, quando o Tesouro recomprou R$ 9,05 bilhões em títulos prefixados pela manhã e mais R$ 7,07 bilhões em papéis atrelados à inflação no período da tarde . Somado ao volume de R$ 27,5 bilhões movimentado no dia anterior, o total chegou a R$ 43,6 bilhões, superando em valores nominais até mesmo as recompras registradas durante a pandemia de covid-19, quando R$ 35,56 bilhões foram adquiridos ao longo de 15 dias .
O que explica a reação do Tesouro
A recompra de títulos públicos é um instrumento usado para dar liquidez ao mercado e suavizar distorções em momentos de forte estresse . Na prática, quando o Tesouro entra comprando esses papéis, ele tenta reduzir oscilações excessivas nos preços e, com isso, conter a abertura da curva de juros, que funciona como referência para expectativas sobre os rumos da economia e da própria Selic .
Desta vez, a pressão sobre os juros foi alimentada por uma combinação de fatores . No cenário internacional, o avanço do conflito no Irã e a alta do petróleo ampliaram a percepção de risco inflacionário . No ambiente doméstico, o mercado também passou a monitorar a possibilidade de uma nova paralisação de caminhoneiros, fator que reacendeu memórias de choques sobre inflação, atividade e contas públicas vistos em episódios anteriores de instabilidade .
Levantamentos de mercado citados no noticiário indicam que a magnitude da atuação atual ultrapassa outros momentos de forte tensão, como as manifestações de 2013 e a greve dos caminhoneiros de 2018 . Isso ajuda a dimensionar por que a ofensiva do Tesouro chamou a atenção de investidores e analistas: não se trata de uma atuação rotineira, mas de uma medida de grande porte para tentar evitar que a turbulência se transforme em disfunção mais ampla no mercado de dívida pública .
Semana de Copom amplia atenção do mercado
Um dos elementos mais sensíveis da operação é o seu timing . Tradicionalmente, o Tesouro evita intervenções mais contundentes no mercado de títulos na semana da decisão do Copom, justamente para não abrir espaço a interpretações de interferência sobre a política monetária . Ainda assim, a leitura técnica apresentada é a de que a deterioração recente exigiu uma resposta mais forte e mais rápida .
A curva de juros futuros é um dos principais termômetros observados pelo mercado para calibrar apostas sobre a Selic . Naquele momento, a pesquisa Focus mostrava divisão entre agentes financeiros para a reunião do Banco Central: a maioria previa corte de 0,25 ponto percentual, enquanto parte do mercado ainda apostava em redução maior . Antes da escalada do conflito no Oriente Médio, a expectativa predominante era de um corte de 0,5 ponto, o que mostra como o cenário mudou em pouco tempo .
Esse pano de fundo ajuda a entender por que a recompra de títulos tem impacto que vai além do mercado financeiro . Quando a curva de juros sobe com força, o efeito tende a se espalhar por crédito, custo de financiamento das empresas, decisões de investimento e percepção sobre inflação futura . Em outras palavras, uma turbulência inicialmente concentrada nos títulos públicos pode acabar influenciando a economia real se persistir por muito tempo .
Estratégia mais agressiva e próximos passos
A avaliação técnica descrita no episódio é de que o Tesouro adotou uma postura mais agressiva para evitar um agravamento posterior . O entendimento é que uma reação antecipada pode impedir que a perda de liquidez se espalhe e torne a correção mais cara ou mais difícil nos dias seguintes .
Esse comportamento contrasta com momentos anteriores em que a resposta foi percebida como mais tardia, como ocorreu em dezembro de 2024 em meio a turbulências políticas e fiscais . Agora, a sinalização foi de maior prontidão diante de um ambiente que reúne choque geopolítico, pressão sobre commodities e ruídos internos capazes de contaminar expectativas .
A continuidade das intervenções, no entanto, segue em aberto . Historicamente, o Tesouro pode atuar por alguns dias seguidos em períodos de estresse, mas a decisão depende das condições de mercado e do grau de persistência da volatilidade . Isso significa que o volume já recomprado não garante, por si só, que o movimento tenha terminado .
Mercado ainda seguiu pressionado
Apesar da atuação bilionária, o mercado encerrou o dia ainda sob pressão . A taxa de juros para janeiro de 2027 subiu para 14,13% ao ano, enquanto os vencimentos mais longos ficaram estáveis . No câmbio, o dólar reduziu a queda ao longo do pregão, e a bolsa perdeu parte do fôlego .
Esse comportamento indica que a intervenção do Tesouro ajudou a amortecer o estresse, mas não eliminou a cautela dos agentes financeiros . Em momentos de incerteza elevada, a atuação oficial pode melhorar a liquidez e reduzir movimentos desordenados, mas a direção dos preços continua dependente da evolução do cenário político, fiscal e internacional .