Classe C representa quase 50% dos empreendedores brasileiros, segundo pesquisa.
(Imagem: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
A classe C, considerada a classe média brasileira, concentra quase metade dos empreendedores e donos de negócios no país. Essa realidade é destacada por um estudo recente do Instituto Locomotiva, realizado em parceria com o Sebrae, que aponta uma transformação profunda no perfil do trabalho no Brasil.
O empreendedorismo, outrora visto como solução emergencial para renda extra, agora se consolida como uma escolha consciente. Motivados pela flexibilidade, autonomia e perspectiva de ganhos superiores, milhões de brasileiros da classe C optam por abrir o próprio negócio, fugindo de jornadas exaustivas, deslocamentos longos e ambientes corporativos muitas vezes tóxicos.
De CLT a dono do negócio: a nova aspiração
A pesquisa revela que o desejo de ascensão social impulsiona essa tendência. Para muitos, o regime de CLT perdeu status, enquanto ser patrão representa melhoria na qualidade de vida e controle sobre o próprio tempo. Décio Lima, presidente do Sebrae, enfatiza que esse sonho mobiliza famílias inteiras, gera emprego, renda e inclusão social em comunidades por todo o Brasil.
Dados do Monitor Global de Empreendedorismo (GEM) 2024, produzidos pelo Sebrae, reforçam o boom: a taxa de empreendedorismo total subiu para 33,4% da população adulta, o maior índice em quatro anos, totalizando 47 milhões de envolvidos em negócios formais e informais. A taxa de empreendedores estabelecidos, com mais de 3,5 anos de operação, avançou de 8,7% em 2020 para 13,2% em 2024, sinalizando maturidade do setor.
Em 2025, o país registrou recorde histórico com mais de 4,9 milhões de novos pequenos negócios abertos, muitos liderados pela classe C. Esses empreendimentos foram responsáveis por sete em cada dez empregos formais gerados no mês de novembro daquele ano, demonstrando o impacto direto na economia.
Classe C: o motor da economia popular
Representando mais da metade da população brasileira, a classe C vive uma crise de perspectivas no mercado formal, mas canaliza essa energia para o empreendedorismo. Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva, destaca que esse grupo será decisivo em 2026, com foco em inovação e superação de barreiras. Setores como serviços de beleza, alimentação fora do lar, educação e construção civil atraem a maioria desses empreendedores, por exigirem baixo investimento inicial e oferecerem retornos rápidos.
No universo dos Microempreendedores Individuais (MEI), perfil comum na classe C, o DAS para 2026 varia de R$ 82,05 a R$ 87,05, ajustado ao salário mínimo de R$ 1.621. A partir de julho, o CNPJ adotará formato alfanumérico para acomodar o crescimento acelerado de registros, sem afetar os existentes.
Entre oportunidade e necessidade: os desafios
O economista Euzébio de Sousa, da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), alerta para a distinção entre empreendedorismo inovador e o por necessidade. Nem toda abertura de CNPJ ou prestação de serviços autônoma configura iniciativa empreendedora genuína; muitas surgem de desemprego, informalidade e precarização, como a pejotização ou atividades de subsistência.
Para Sousa, o verdadeiro empreendedorismo promove desenvolvimento via inovação e ampliação produtiva, não como defesa contra pobreza. Ele defende qualificação contínua para transformar esses negócios em motores de crescimento sustentável.
- Flexibilidade horária e autonomia são os principais atrativos para a classe C.
- Políticas públicas de crédito, capacitação e inovação são essenciais para competitividade, conforme Décio Lima.
- Em 2024, jovens de 18 a 29 anos representaram 16% dos empreendedores, com crescimento de 23% em dez anos.
- Mulheres, jovens e negros emergem como perfil do futuro empreendedor, segundo GEM.
Impactos e perspectivas para 2026
O fenômeno fortalece a base econômica, com micro e pequenas empresas impulsionando 30% do PIB e 55% dos empregos formais. Em 2025, o Sebrae atendeu 64 milhões de empreendedores, elevando a produtividade em 27,7% via programas como Brasil Mais Produtivo e gerando 93 milhões de negócios em internacionalização.
Para 2026, especialistas preveem consolidação dessa tendência, com foco em educação empreendedora – que atingiu 8 milhões de estudantes – e acesso a mercados. No entanto, desafios como inflação controlada, juros e burocracia persistem, demandando ambiente legal favorável.
A classe C, ao empreender, não só busca sobrevivência, mas redefine o trabalho no Brasil, promovendo inclusão e mobilidade social. Com apoio adequado, esses negócios podem elevar o país no ranking global de empreendedorismo, onde já subiu posições recentes.
O estudo reforça que o sucesso depende de políticas que vão além da abertura de empresas: capacitação, crédito acessível e inovação são chaves para converter aspiração em realidade próspera.