Queijos europeus e carnes brasileiras têm novas tarifas com acordo Mercosul-UE.
(Imagem: gerado por IA)
Depois de quase três décadas de negociações intensas, avanços diplomáticos e muitos impasses, o histórico acordo entre o Mercosul e a União Europeia finalmente começou a produzir seus primeiros efeitos práticos na economia real brasileira. Desde o início de maio, o fluxo comercial entre os blocos ganhou um novo ritmo, marcado pela redução de barreiras que promete transformar não apenas o setor produtivo, mas também a experiência do consumidor final nos supermercados e empórios do país.
Queijos europeus com preço reduzido
Um dos pontos que mais chama a atenção de quem acompanha o mercado de consumo é a queda imediata nos custos de importação de queijos originários da Europa. Tradicionalmente tributados com alíquotas elevadas que encareciam o produto final, esses laticínios agora gozam de uma redução tarifária que baixou de 28% para 25,2% dentro da preferência negociada. Embora a variação pareça tímida à primeira vista, ela sinaliza o início de uma tendência de maior competitividade e diversificação na oferta de produtos premium no Brasil.
Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), as primeiras licenças de importação já foram processadas via Portal Único Siscomex. Isso significa que produtos icônicos da gastronomia europeia, como o Parmigiano-Reggiano, Brie e Camembert, devem chegar aos centros de distribuição e portos estratégicos com custos operacionais reduzidos, beneficiando diretamente lojas especializadas e grandes redes de varejo que operam em centros comerciais e shoppings.
Exportações brasileiras: Carne e Cachaça no topo da lista
Enquanto o Brasil abre as portas para os queijos europeus, o agronegócio nacional comemora ganhos significativos no acesso ao exigente mercado comum europeu. O grande destaque recai sobre a carne bovina. Cortes nobres, que antes eram exportados sob a chamada Cota Hilton com uma taxação de 20%, agora entram na União Europeia com tarifa zero. Essa mudança coloca o produto brasileiro em uma posição de vantagem estratégica frente a outros competidores globais e aumenta a rentabilidade do produtor nacional.
Além da carne bovina, a carne de aves desossada e a cachaça também receberam sinal verde para exportação com alíquota zero dentro das cotas estabelecidas. Para o setor de destilados, o acordo representa uma oportunidade de ouro para consolidar a cachaça como um produto de alto valor agregado no continente europeu, eliminando impostos que antes limitavam a competitividade do destilado brasileiro frente a bebidas como a vodca e o uísque.
O cronograma para chocolates e tomates
O acordo prevê uma implementação gradual para outros setores considerados sensíveis. Se hoje o foco está nos queijos e nas carnes, o cronograma já estabelece que, a partir de 2027, produtos como chocolates e tomates processados também terão suas tarifas reduzidas de forma escalonada. Até lá, o governo brasileiro e as empresas utilizam este período de transição para adaptar a logística e os rigorosos controles fitossanitários exigidos pelo bloco europeu.
A Secretaria de Comércio Exterior (Secex) informou que o sistema de cotas já está operando plenamente. No total, mais de 5 mil linhas tarifárias brasileiras já estão isentas de impostos para exportação à Europa, enquanto o Mercosul liberou mais de mil linhas para produtos europeus entrarem com isenção. Esse volume de isenções mostra que o tratado é muito mais profundo do que apenas alimentos, abrangendo uma gama vasta de insumos industriais e bens de capital que podem modernizar a indústria nacional.
Logística e desdobramentos econômicos
Toda essa engrenagem comercial depende do funcionamento eficiente do Portal Único Siscomex, que centraliza os pedidos de licença. O governo federal assegurou que toda a regulamentação necessária foi concluída antes da entrada em vigor, permitindo que as empresas solicitassem licenças desde o primeiro dia. O Porto de Santos, sendo o principal hub logístico da América Latina, desempenha um papel central nesse novo cenário, sendo a principal porta de entrada para os carregamentos europeus e o principal escoadouro para a carne e cachaça que agora viajam com custos tributários menores.
O impacto de longo prazo do acordo Mercosul-UE tende a ser a modernização das cadeias produtivas locais. Com a maior concorrência e o acesso facilitado a mercados que exigem alta sustentabilidade, a tendência é que a indústria e a pecuária brasileira elevem ainda mais seus padrões de qualidade, consolidando o país como um parceiro comercial indispensável para o bloco europeu nas próximas décadas.