Uso de inteligência artificial no trabalho cresceu de 17% para 24% em um ano no Brasil.
(Imagem: gerado por IA)
A relação do brasileiro com a inteligência artificial (IA) está deixando de ser pautada puramente pelo receio do desconhecido para se tornar uma questão de adaptação prática no cotidiano. Segundo novos dados do Datafolha, o sentimento de ameaça em relação à tecnologia esfriou no último ano. Hoje, 48% dos brasileiros que conhecem a ferramenta afirmam ter muito ou um pouco de medo de serem substituídos em suas funções, um recuo significativo frente aos 56% registrados em 2023.
Essa mudança de percepção coincide com a entrada definitiva da IA nos escritórios e postos de trabalho. O levantamento revela que a fatia de profissionais que utilizam a inteligência artificial para cumprir suas obrigações laborais saltou de 17% para 24% em apenas doze meses. O movimento sugere que, à medida que a ferramenta se torna familiar, o pânico de uma substituição imediata dá lugar a uma tentativa de integração produtiva.
O perfil da exposição e os 30 milhões de trabalhadores
Apesar da queda no temor generalizado, o impacto real no mercado de trabalho brasileiro é vasto e complexo. Um estudo do FGV Ibre, amparado em metodologias da Organização Internacional do Trabalho (OIT), calcula que aproximadamente 30 milhões de brasileiros, cerca de 29,6% da população ocupada, estão em funções com algum grau de exposição à IA generativa.
O grupo mais sensível a essa transformação não é o de trabalhadores manuais, mas sim o de jovens com alta escolaridade, concentrados majoritariamente no setor de serviços, informação e finanças. Destes, 5,2 milhões estão no que os pesquisadores chamam de "zona de alta exposição". Contudo, há um paradoxo interessante: as profissões mais expostas são também aquelas cujos profissionais possuem maior capacidade de resiliência e adaptação, devido ao acesso à educação continuada e melhores condições financeiras para enfrentar transições.
Eficiência versus Substituição: O dilema econômico
A discussão ganha contornos mais profundos quando analisada sob a ótica da produtividade. Daron Acemoglu, vencedor do Prêmio Nobel de Economia, pondera que a IA carrega uma dualidade perigosa. Se por um lado ela pode reduzir custos e aumentar a eficiência, o que, teoricamente, gera economia e estimula o consumo de novos serviços, criando novas vagas, por outro, o risco de uma substituição agressiva sem a criação proporcional de novos postos de trabalho é real.
Essa preocupação é ecoada por figuras influentes do Vale do Silício, como Dario Amodei, CEO da Anthropic. Ele defende que o avanço tecnológico deve ser acompanhado por políticas públicas agressivas de estímulo à contratação, sob o risco de enfrentarmos um cenário de desemprego estrutural impulsionado pela automação inteligente.
Onde o brasileiro impõe um limite
Se a aceitação da IA como assistente de trabalho avança, a confiança na tecnologia para tomadas de decisões críticas ainda enfrenta uma barreira cultural e ética robusta. O Datafolha identificou uma rejeição massiva ao uso de algoritmos em processos humanos sensíveis. Nada menos que 79% dos entrevistados consideram inadequado que uma IA decida sobre a contratação ou demissão de um funcionário.
A desconfiança se estende à saúde e ao crédito: 68% desaprovam decisões médicas baseadas em inteligência artificial e 67% são contrários ao uso da ferramenta para conceder ou negar empréstimos. Os dados deixam claro que, para o brasileiro, a tecnologia pode até ser uma ferramenta de apoio, mas a palavra final sobre o destino de uma pessoa deve permanecer, obrigatoriamente, em mãos humanas. O cenário indica que a IA passará a ser uma colega de bancada cada vez mais presente, mas o controle do leme ainda é uma exigência da sociedade.