Brasil fora do Mapa da Fome: avanços e desafios reais.
(Imagem: Fernando Frazão/Agência Brasil)
Há exatamente um ano, o Brasil celebrava uma conquista histórica para a sua política social: o retorno oficial ao grupo de nações que conseguiram manter o índice de subnutrição abaixo de 2,5%, o que, na prática, consolidou a saída do país do temido Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas (ONU). Passados doze meses, o diagnóstico da segurança alimentar no país revela avanços inegáveis, mas também acende um alerta sobre gargalos estruturais. Atualmente, embora 77% da população desfrute de acesso pleno e regular a alimentos de qualidade, o país ainda convive com a dura realidade de 6,5 milhões de brasileiros em situação de insegurança alimentar grave.
A radiografia da desigualdade regional
Os números mostram que a fome no Brasil não se distribui de maneira uniforme. De acordo com o pesquisador Lucas de Almeida Moura, do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Combate à Fome, vinculado à Faculdade de Saúde Pública da USP, o sucesso obtido até agora é fruto de uma forte integração entre diferentes políticas públicas. No entanto, o desafio central reside em tornar essas estratégias permanentes.
Moura é o responsável pelo desenvolvimento do Índice Multidimensional de Insegurança Alimentar (MUFII), indicador publicado na revista científica Sustainability que avalia a fome sob a ótica de 12 parâmetros de desenvolvimento sustentável. Os dados mostram um abismo geográfico marcante: enquanto estados como Santa Catarina registram os menores índices de vulnerabilidade, mais da metade da população em estados das regiões Norte e Nordeste, como Maranhão, Acre e Amazonas, ainda convive com patamares elevados de insegurança alimentar multidimensional.
Os três pilares de sustentação da soberania alimentar
Para analistas, a manutenção do Brasil fora do Mapa da Fome exige mais do que a simples distribuição de alimentos. Trata-se de sustentar uma estrutura que envolve emprego, saneamento, saúde e renda. Semíramis Domene, professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e diretora do Instituto Fome Zero (IFZ), aponta que a virada de chave no cenário nacional se apoia em três grandes frentes.
O primeiro pilar consiste no combate direto à desigualdade por meio da recuperação do mercado de trabalho. Com a taxa de desemprego atingindo os menores patamares em mais de uma década e o reajuste real do salário mínimo, o poder de compra das famílias mais pobres ganhou fôlego novo.
A segunda vertente se ancora na consolidação de redes de proteção social. O fortalecimento do programa Bolsa Família e a modernização do Cadastro Único garantiram que o auxílio financeiro chegasse a quem de fato precisa, funcionando como uma ponte para a emancipação social. Por fim, o fomento à produção de alimentos pela agricultura familiar, por meio do restabelecimento do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), reconectou o produtor rural diretamente à mesa da população, priorizando o abastecimento interno sobre a lógica de exportação de commodities.
Inflação controlada e o futuro das políticas públicas
O comportamento da economia também desempenhou papel decisivo na mesa das famílias brasileiras. O economista Daniel Duque, pesquisador associado do Ibre/FGV, ressalta que o controle da infração de alimentos foi um forte aliado nos últimos anos. Com safras agrícolas recordes e a desaceleração de preços essenciais, o orçamento doméstico ganhou um alívio fundamental.
A grande questão que se coloca para o futuro é a blindagem dessas políticas contra oscilações de mercado e mudanças de gestão governamental. Segundo Valéria Burity, secretária Extraordinária de Combate à Pobreza e à Fome do Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), a meta do governo agora é integrar estados e municípios para rastrear e acolher as parcelas da população que continuam invisíveis aos programas de transferência de renda e segurança alimentar. Consolidar esse direito básico como uma política de Estado, e não apenas de governo, surge como o único caminho viável para impedir que o país retroceda nas conquistas sociais recentemente alcançadas.