A presença de artistas e profissionais negros no audiovisual brasileiro aumentou nos últimos anos, mas a desigualdade racial ainda aparece de forma clara no acesso a postos de comando, financiamento e remuneração. O diagnóstico está em uma carta divulgada pela Associação de Profissionais do Audiovisual Negro no Brasil (Apan), que reuniu dados do setor e propostas para ampliar a participação de pessoas negras na cadeia produtiva.

O documento foi apresentado em um momento de maior visibilidade de narrativas negras no cinema nacional. Entre os seis filmes pré-selecionados para representar o Brasil na corrida pelo Oscar de 2027, três tinham forte presença de realizadores ou protagonistas negros, incluindo Feito Pipa, escolhido para representar o país, além de Vicentina Pede Desculpas e Nosso Segredo.

Representação cresceu, mas ainda é desigual

Segundo dados reunidos pela Apan, profissionais brancos ainda são maioria nos registros de emprego na televisão aberta e na produção cinematográfica. Na TV aberta, pessoas brancas representam cerca de 65% dos profissionais, enquanto pretos e pardos aparecem com 32,6%. No cinema, a proporção apresentada pela entidade é de 69,6% de brancos e 29,3% de negros.

A diferença se torna ainda mais evidente quando se observa o acesso aos cargos de direção e aos maiores orçamentos. A associação afirma que 94% dos filmes que receberam recursos federais foram dirigidos por pessoas brancas e que mais de 90% das produções com verba pública superior a R$ 5 milhões também tiveram direção branca.

Desigualdade salarial e concentração em funções técnicas

A Apan aponta que profissionais negros estão concentrados em funções técnicas e operacionais e têm menor presença em postos de direção, produção executiva e tomada de decisão. A entidade também chama atenção para diferenças salariais e maior exposição à informalidade.

Mulheres negras aparecem em situação ainda mais desfavorável por enfrentarem sobreposição de desigualdades de raça e gênero. A associação defende mecanismos que considerem não apenas presença numérica nas equipes, mas também participação em cargos de liderança e acesso efetivo aos recursos de produção.

Políticas de fomento ajudaram a ampliar produção

Programas como a Lei Paulo Gustavo e a Política Nacional Aldir Blanc contribuíram para ampliar o financiamento de projetos culturais e festivais voltados a realizadores negros. Levantamento citado pela Apan indica que 58% dos festivais com foco em obras dirigidas por profissionais negros tiveram participação direta desses incentivos no último ano.

A entidade também destaca que 83% das obras audiovisuais dirigidas por pessoas negras no Brasil foram produzidas depois de 2010, sinal de que o crescimento é recente e depende, em grande medida, de políticas de acesso e formação de mercado.

Ações afirmativas ainda são alvo de disputa

Atualmente, editais federais podem reservar parcelas de recursos para ações afirmativas. A Apan defende ampliação e fiscalização desses mecanismos para evitar que empresas utilizem profissionais negros apenas formalmente para cumprir critérios de seleção.

A associação relata casos em que pessoas negras teriam assinado cartas de anuência para projetos e depois sido afastadas quando os recursos foram liberados. Para reduzir fraudes, defende mecanismos de heteroidentificação semelhantes aos usados em universidades públicas.

Mais filmes não significa igualdade consolidada

O aumento de produções com protagonismo negro e o reconhecimento em festivais internacionais ajudam a ampliar público e visibilidade, mas não resolvem sozinhos a desigualdade estrutural. O desafio é garantir continuidade de carreira, acesso a financiamento e presença permanente em posições de decisão.

A Apan também defende maior circulação do cinema brasileiro em salas comerciais e escolas, argumentando que o público precisa ter acesso regular a produções nacionais para que o avanço não dependa apenas de prêmios ou eventos pontuais.