Operação da Polícia Civil na Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia gerou desconforto entre aliados de Nunes e Tarcísio.
(Imagem: gerado por IA)
A temperatura política na capital paulista subiu drasticamente nesta segunda-feira (1º). Uma operação da Polícia Civil, que mirou um contrato milionário da Prefeitura de São Paulo, não apenas apreendeu documentos, mas também abriu uma crise de confiança nos bastidores entre os governos de Ricardo Nunes (MDB) e Tarcísio de Freitas (Republicanos). O centro do embate é a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia, alvo de buscas em uma investigação que envolve cifras altas e nomes conhecidos da produção audiovisual ligada à direita brasileira.
O incômodo na gestão Nunes é palpável e imediato. Aliados próximos ao prefeito classificam a movimentação como "midiática" e "desnecessária", argumentando que todos os dados do contrato com o Instituto Conhecer Brasil (ICB) já eram de domínio público e estavam acessíveis aos órgãos de controle. A surpresa maior, no entanto, reside na origem da ordem: a polícia estadual, tecnicamente sob o comando de um aliado político direto de Nunes, o governador Tarcísio de Freitas. O episódio levanta dúvidas sobre a coesão da base governista em um momento de alinhamentos estratégicos para o futuro político do estado.
O contrato sob suspeita e o elo com o filme Dark Horse
O foco das investigações é um contrato expressivo, de R$ 108 milhões, destinado à instalação de 5 mil pontos de Wi-Fi gratuito em vias públicas das periferias de São Paulo. O que atrai os holofotes, contudo, é a estrutura por trás do Instituto Conhecer Brasil. A entidade é comandada por Karina Ferreira da Gama, empresária que também é proprietária da Go Up Entertainment, a produtora responsável pelo filme "Dark Horse", documentário que retrata a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Essa conexão transformou um procedimento de fiscalização administrativa em um complexo campo de batalha político. Enquanto a polícia investiga possíveis irregularidades na execução do serviço e na prestação de contas, o entorno de Nunes questiona o "timing" da operação. O próprio prefeito, em declarações à imprensa, indagou publicamente o motivo de a ação ter ocorrido justamente agora, sugerindo que o componente político pode ter tido mais peso do que o técnico na decisão de deflagrar as buscas.
Independência policial ou falta de sintonia entre aliados?
Do outro lado da Praça da Bandeira, o Palácio dos Bandeirantes mantém uma postura de distanciamento cauteloso. Interlocutores de Tarcísio de Freitas reforçam que a Polícia Civil paulista atua com total autonomia e que o governador não foi e nem deveria ser avisado antecipadamente sobre operações em curso. Essa narrativa de "independência republicana" serve como blindagem institucional para Tarcísio, mas não arrefece a insatisfação dos aliados municipais que esperavam maior coordenação.
Informações de bastidores indicam que a operação avançou fora dos holofotes da cúpula da Secretaria de Segurança Pública, tendo sido conduzida pela 2ª Divisão de Investigações sobre Crimes contra a Administração e Fraudes (Discca). Essa ala da corporação estaria operando sob diretrizes estritamente técnicas, baseadas em um inquérito aberto a pedido do Ministério Público de São Paulo (MP-SP), após uma denúncia inicial feita ao Ministério Público Federal no final de 2023. O desenrolar do caso agora depende da análise do material apreendido, o que manterá a relação entre as duas gestões sob constante teste de estresse.