Equipes de saúde tentam conter avanço do Ebola em zonas de conflito na África. Foto: Reprodução/MSF
(Imagem: gerado por IA)
A Organização Mundial da Saúde (OMS) elevou o nível de atenção global ao declarar, neste domingo, uma emergência de saúde pública de importância internacional devido ao novo surto de Ebola na República Democrática do Congo (RDC). A decisão, anunciada pelo diretor-geral Tedros Adhanom Ghebreyesus, ocorre após o vírus ultrapassar fronteiras geográficas e atingir Goma, um centro urbano estratégico e densamente povoado.
O perigo da cepa Bundibugyo
O que mais preocupa as autoridades sanitárias não é apenas a velocidade de contágio, mas a natureza do vírus identificado. Segundo o ministro da Saúde da RDC, Samuel-Roger Kamba, trata-se da cepa Bundibugyo. Diferente da cepa Zaire, para a qual existem imunizantes eficazes desenvolvidos em crises anteriores, a Bundibugyo não possui vacina nem tratamento específico disponível no momento.
Com uma taxa de mortalidade que pode chegar a 50%, o surto atual já contabiliza ao menos 88 mortes confirmadas e mais de 330 casos suspeitos. A confirmação de que uma mulher infectada viajou de Bunia para Goma após a morte de seu marido acendeu o sinal vermelho: Goma é uma cidade de trânsito intenso, servindo de hub para o leste do país e fronteira com Ruanda.
Cenário de guerra e dificuldades logísticas
A situação é agravada pelo contexto geopolítico da região. Goma e seus arredores estão sob forte influência da milícia M23, um grupo antigovernamental que dificulta o acesso de equipes médicas e a implementação de cordões sanitários. Em províncias como Ituri, a infraestrutura precária impede o isolamento adequado de doentes.
Relatos colhidos por organizações locais indicam que muitas pessoas estão morrendo em suas próprias casas, sem qualquer assistência. Em alguns vilarejos, familiares cuidam dos corpos das vítimas sem o equipamento de proteção necessário, o que potencializa a transmissão por fluidos corporais, a principal via de contágio da febre hemorrágica.
Resposta internacional e riscos de propagação
A ONG Médicos Sem Fronteiras (MSF) já iniciou a mobilização para uma resposta em larga escala, mas admite que os desafios são colossais. "O número de casos em um curto espaço de tempo e a dispersão geográfica para além das fronteiras é extremamente preocupante", afirmou Trish Newport, diretora de programas de emergência da MSF. Um caso fatal já foi registrado na vizinha Uganda, confirmando a tese de propagação regional.
Embora a OMS afirme que, por enquanto, o cenário não configura uma pandemia, o alerta de emergência internacional serve para liberar fundos de ajuda, coordenar respostas entre nações e acelerar pesquisas laboratoriais. A organização destaca que o risco de propagação regional é "muito alto", especialmente pelo fluxo migratório e comercial nas fronteiras do leste africano.
O monitoramento agora se volta para a contenção em áreas urbanas. Se o vírus se estabelecer em cidades grandes como Goma, o controle do surto exigirá um esforço de guerra sanitária inédito para esta década. A prioridade imediata das equipes de saúde é o rastreamento de contatos e a tentativa de isolar novos casos antes que o vírus chegue a outras capitais africanas.