Representantes da sociedade civil organizada protestam contra a tecnocracia na COP17, realizada em Ulaanbaatar.
(Imagem: gerado por IA)
A abertura da 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17), sediada em Ulaanbaatar, na Mongólia, foi atropelada por uma crise diplomática profunda. Logo nos primeiros passos do evento que deveria guiar a resposta global contra a degradação das terras secas, os países-membros aprovaram uma agenda oficial que remove por completo os debates sobre desigualdade de gênero e participação popular. A decisão provocou revolta imediata em delegações do mundo todo.
O Civil Society Organization (CSO) Panel, coalizão que representa mais de 1.200 entidades civis nos cinco continentes, publicou uma carta contundente de repúdio. Em nota pública, o grupo declarou-se "profundamente chocado" com o retrocesso. Para as lideranças sociais, o direcionamento tomado pelos governos enfraquece o multilateralismo ao transformar a emergência climática em um mero problema contábil.
Uma agenda puramente tecnocrática acende o alerta
A exclusão de temas humanitários expõe uma fratura ideológica nos corredores das Nações Unidas. Ao priorizarem métricas puramente técnicas e econômicas, os negociadores internacionais dão as costas aos efeitos práticos da seca sobre as populações mais vulneráveis. Quem vive o cotidiano das áreas degradadas entende que a desertificação não se resume ao empobrecimento físico do solo.
Ela gera migração forçada, agrava a fome e destrói economias locais de subsistência. Mulheres, historicamente encarregadas da segurança hídrica e alimentar nas áreas rurais do Sul Global, acabam sendo as primeiras e mais duramente afetadas. Retirar a perspectiva de gênero das mesas de negociação acaba por inviabilizar soluções realistas e sustentáveis para conter a crise.
O abismo entre os gabinetes e a realidade dos territórios
Ativistas que acompanham as negociações na Ásia Central advertem sobre o perigo de decisões tomadas em gabinetes fechados. Sem a validação de povos indígenas, agricultores familiares, pastores nômades e jovens, qualquer resolução corre o risco de virar letra morta. São essas comunidades locais que guardam o conhecimento ancestral capaz de restaurar biomas em colapso.
A imposição de uma visão tecnocrática esvazia o papel transformador da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD). Ao silenciar as vozes dos territórios afetados, a diplomacia global parece escolher o caminho do isolamento corporativo, favorecendo o interesse financeiro em detrimento das vidas humanas diretamente conectadas à terra.
O fantasma do isolamento das Convenções da Rio 92
Outro ponto grave criticado pela sociedade civil é a falta de conexão planejada entre as três grandes frentes ambientais da ONU. A UNCCD, a Convenção sobre Diversidade Biológica (CBD) e a Convenção-Quadro sobre Mudança do Clima (UNFCCC) nasceram juntas na histórica Rio 92. No entanto, o texto adotado na Mongólia ignora os mecanismos de integração entre elas.
Esse distanciamento vai na contramão dos avanços conquistados na COP30, realizada em Belém, no Brasil. Naquela ocasião, as lideranças assinaram a Declaração Conjunta de Belém, reafirmando que as crises climática, de perda de espécies e de degradação da terra estão visceralmente conectadas. Ignorar esse pacto fragmenta as estratégias de sobrevivência global.
Caminhos truncados e o que esperar de Ulaanbaatar
Com o início das plenárias oficiais de votação, o cenário que se desenha é de forte oposição. A delegação de observadores brasileiros e de outros países em desenvolvimento promete manter a pressão para restaurar a centralidade humana nas discussões. Se a resistência não prosperar, o documento final da COP17 corre o risco de ser lembrado como um tratado frio de engenharia financeira e agrícola.
O desafio agora está nas mãos das delegações dispostas a reabrir as discussões orçamentárias e de governança. Os desdobramentos dos próximos dias definirão se as Nações Unidas vão manter as portas abertas à participação democrática ou se consolidarão uma barreira tecnocrática difícil de transpor nos próximos anos.