Tirinhas da Engenheira Eugênia integram material pedagógico da USP para conscientização social.
(Imagem: gerado por IA)
A sala de aula da Educação de Jovens e Adultos (EJA) ganhou um reforço visual que vai muito além da alfabetização convencional. Em um esforço para levar temas complexos como assédio moral e violência de gênero para o centro do debate, pedagogos da Universidade de São Paulo (USP) adotaram uma estratégia inusitada: o uso de histórias em quadrinhos.
A iniciativa integra a apostila "Práticas de Alfabetização e de Matemática", voltada aos anos iniciais do ensino fundamental. Ao folhear o material, os alunos encontram a Engenheira Eugênia, uma personagem que nasceu com a missão de dar voz às lutas femininas em um setor historicamente dominado por homens.
Criada originalmente em 2013 pela Federação Interestadual de Sindicato de Engenheiros (Fisenge), Eugênia personifica os dilemas de milhares de trabalhadoras brasileiras. Sua presença no material didático não é apenas estética; é um convite direto à reflexão sobre direitos que, muitas vezes, os estudantes da EJA vivem na pele, mas nem sempre conseguem nomear.
Representatividade e diálogo no ambiente de trabalho
Eugênia não é uma personagem genérica. Ela é uma mulher negra, engenheira com 15 anos de estrada, mãe de dois filhos e divorciada. Essa construção minuciosa busca quebrar estereótipos de que a engenharia é uma profissão restrita a uma elite e gera uma identificação imediata com a realidade da jornada dupla enfrentada por tantas brasileiras.
No quadrinho selecionado para a EJA, a personagem enfrenta o assédio moral de um superior que a desqualifica justamente por ser mulher. A atividade pedagógica propõe que os alunos reconheçam essas situações no cotidiano profissional, estimulando o diálogo sobre respeito, igualdade e segurança jurídica.
Para Simone Baía, diretora do coletivo de mulheres da Fisenge e uma das mentes por trás da personagem, a ferramenta é essencial. Segundo ela, era necessário um instrumento que transmitisse mensagens complexas de maneira acessível e direta, servindo como uma ponte entre o sindicato e a sociedade civil.
O impacto social para além dos livros
A eficácia da Engenheira Eugênia já ultrapassou os muros das universidades e sindicatos. O projeto "Viaduto Literário", por exemplo, levou as tirinhas para crianças do Morro da Providência, no Rio de Janeiro. O impacto foi imediato: ao verem uma engenheira negra e bem-sucedida, os jovens passaram a questionar as barreiras invisíveis que limitam suas próprias ambições.
Com reconhecimento internacional e traduções para o inglês, a iniciativa conquistou em 2016 o Prêmio Anamatra de Direitos Humanos. O sucesso reforça a tese de que a educação, quando aliada a ferramentas lúdicas e representativas, torna-se o caminho mais curto para a transformação social.
Ao manter o trabalho ativo, o coletivo acredita que discutir problemas sistêmicos é o primeiro passo para mudar a realidade. Seja no canteiro de obras ou na sala de aula, a Engenheira Eugênia prova que o conhecimento é a ferramenta mais poderosa contra qualquer tipo de opressão.