Garrafas de marcas chinesas encontradas em área de preservação ambiental no litoral paulista. Foto: ECOMOV
(Imagem: gerado por IA)
Imagine caminhar por uma reserva ambiental intocada e encontrar embalagens de produtos que sequer são vendidos no Brasil. Esse cenário, que parece improvável, tornou-se realidade nas areias de Peruíbe, no litoral de São Paulo, onde o lixo vindo da Ásia percorreu mais de 17 mil quilômetros.
O material foi localizado durante uma vistoria ambiental realizada pela organização ECOMOV na região da Juréia-Itatins, especificamente no Parque Estadual do Itinguçu. O achado levanta um alerta urgente sobre o impacto invisível da navegação internacional em nossas costas.
Os resíduos, que incluem desde embalagens plásticas de alimentos até produtos técnicos industriais, foram encontrados nas praias do Guarauzinho e Arpoador. A preservação extrema destas áreas torna o incidente ainda mais alarmante para os especialistas em conservação.
O rastro de marcas internacionais na areia
Entre os itens que chamaram a atenção, destacam-se produtos de limpeza da marca chinesa White Cat e até garrafas de chá gelado Master Kong. Além de itens domésticos, foi identificado um limpa-contato elétrico da marca HAIJI, comumente utilizado em ambientes marítimos e industriais.
O que mais impressiona os investigadores é que muitos desses itens ainda estavam dentro do prazo de validade. Esse detalhe reforça a suspeita de que o descarte não foi fruto de lixo antigo flutuando há anos, mas sim de um despejo recente feito por embarcações que circulam ou aguardam no Porto de Santos.
De acordo com a análise da ECOMOV, cerca de 40% de todo o resíduo coletado na região é de origem estrangeira. A Ásia é a grande protagonista desse impacto: o continente responde por 82% dos materiais internacionais encontrados, com a China isolada na liderança da poluição externa.
Investigação e impacto ambiental
O caso não ficará restrito aos relatórios ambientais. Os dados coletados já integram um inquérito conduzido pelo Ministério Público de São Paulo, através do GAEMA da Baixada Santista. A investigação busca rastrear as rotas marítimas para punir os responsáveis pelo descarte irregular.
Somente em 2025, o monitoramento registrou mais de 900 itens internacionais entre os portos de São Sebastião e Santos. Além do impacto visual e da poluição direta, esses resíduos ameaçam severamente a fauna marinha, que muitas vezes confunde o plástico com alimento.
Para os especialistas, a presença constante desse "lixo viajante" acende um sinal vermelho. É necessário um controle mais rígido sobre o que acontece em alto-mar, garantindo que o desenvolvimento portuário não custe a sobrevivência dos nossos últimos refúgios naturais.