Barragem de contenção em área de mineração sob monitoramento técnico.
(Imagem: Antonio Cruz/ Agência Brasil)
O fantasma do colapso de estruturas de mineração e abastecimento de água volta a rondar o Brasil com dados alarmantes. O novo Relatório de Segurança de Barragens (RSB), divulgado pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), aponta que 213 barragens em todo o país encontram-se atualmente em situação crítica. São estruturas que apresentam sérios problemas de conservação ou cujo controle de segurança foi negligenciado pelos proprietários, colocando em risco direto a vida de comunidades vizinhas, pontes, rodovias e o meio ambiente.
Mais do que o número de estruturas sob alerta, o que mais preocupa especialistas é o enfraquecimento do sistema de monitoramento. Pela primeira vez desde o desastre humanitário e ambiental de Brumadinho (MG), em 2019, o país registrou uma queda no número de profissionais dedicados à fiscalização dessas barragens. A perda de pessoal ocorre justamente em um momento em que os eventos climáticos extremos demandam vigilância ainda mais rigorosa sobre reservatórios de água e rejeitos.
O apagão de dados e as barragens "invisíveis"
O diagnóstico da ANA revela um cenário de incertezas generalizadas. Atualmente, o Sistema Nacional de Informações sobre Segurança de Barragens (SNISB) conta com quase 30 mil estruturas cadastradas. No entanto, impressionantes 48% desse total, o equivalente a mais de 14,3 mil barragens permanecem com a situação classificada como "indefinida".
Na prática, isso significa que os órgãos responsáveis pelo cadastro não enviaram as informações básicas necessárias para avaliar se essas estruturas se enquadram ou não nas exigências da Política Nacional de Segurança de Barragens (PNSB). Sem esses dados, é impossível prever o real risco que representam para as populações do entorno. Apenas 30% das barragens brasileiras são consideradas comprovadamente adequadas pela fiscalização.
Mineração e abastecimento lideram a lista de risco
O perigo não se restringe a uma única atividade econômica. Entre as 213 estruturas listadas em situação crítica de conservação, as atividades de mineração lideram o ranking de preocupação, respondendo por 55 das barragens sob alerta (26%). O abastecimento público de água aparece logo atrás, com 51 reservatórios sob risco crítico (24%), seguido por canais de irrigação (14%) e estruturas de controle de vazão (9%).
Essas estruturas estão espalhadas por 19 estados e pelo Distrito Federal. Os focos mais preocupantes concentram-se no Ceará, em Mato Grosso e em São Paulo, onde a proximidade de reservatórios com grandes centros urbanos e rodovias importantes aumenta drasticamente a gravidade de um eventual rompimento.
Menos fiscais e o cansaço do sistema
O retrocesso na capacidade de fiscalização do Estado é o ponto mais sensível do relatório de 2026. Atualmente, o país conta com apenas 333 profissionais para atuar nos 33 órgãos fiscalizadores ativos. Desse total, somente 161 dedicam-se exclusivamente à segurança de barragens. O deficit estimado para garantir uma cobertura mínima de segurança nas vistorias é de pelo menos 221 especialistas.
Mesmo diante do quadro de pessoal defasado, os técnicos em atividade aumentaram as vistorias, sobretudo por meio de análises documentais (alta de 49%) e fiscalizações em campo (alta de 2%). Contudo, a sobrecarga de trabalho impõe limites físicos à prevenção de novos desastres. Em 2025, o Brasil registrou 18 acidentes com colapso total de estruturas e 23 incidentes graves que demandaram a evacuação emergencial de moradores e causaram danos materiais a estradas e pontes.
A persistência dessas falhas estruturais expõe a lentidão no cumprimento da legislação federal e a urgência de uma reestruturação dos órgãos ambientais e de saneamento, sob o risco de novas tragédias evitáveis se tornarem realidade nas próximas temporadas de chuvas.