Alunos do projeto Flautistas da Marambaia em atividade prática no Sítio Roberto Burle Marx, no Rio de Janeiro.
(Imagem: Andrea Nestrea/ Divulgação)
Em Barra de Guaratiba, no extremo da Zona Oeste do Rio de Janeiro, o manguezal costumava ser associado erroneamente a um local sujo e de odor desagradável. Esse preconceito social fazia com que muitos jovens da região sentissem vergonha de sua própria realidade. Hoje, no entanto, esse cenário está sendo profundamente transformado no compasso de flautas e canções. O projeto Flautistas da Marambaia, que realiza suas atividades no icônico Sítio Roberto Burle Marx, vem ressignificando a relação de crianças e adolescentes com um dos ecossistemas mais importantes do planeta.
A iniciativa promove uma união potente entre arte e ciência. Por meio de oficinas de música e visitas de campo integradas à preservação ambiental, os alunos aprendem na prática o valor do território onde vivem. Em uma parceria de oito anos com o laboratório GeoMarinha, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o projeto realiza expedições científicas guiadas para aproximar os estudantes da fauna e flora locais, ensinando-os a identificar e valorizar a biodiversidade do mangue.
O valor invisível de um ecossistema vital
"O manguezal sofre com um preconceito histórico do ponto de vista social, mas ecologicamente ele é um dos ecossistemas mais valiosos do mundo", explica a geógrafa Flavia Lins de Barros, coordenadora do GeoMarinha/UFRJ. Ela destaca que cerca de 70% da vida marinha nos oceanos depende do manguezal para desovar, se proteger ou se alimentar. Além disso, o bioma desempenha um papel crítico no combate às mudanças climáticas, funcionando como um poderoso sequestrador de carbono e uma barreira natural contra a erosão da orla.
Quando os alunos compreendem que os caranguejos que passam por seus quintais fazem parte de uma engrenagem ambiental de escala global, a vergonha dá lugar ao sentimento de pertencimento. Segundo as coordenadoras, a mudança de comportamento é visível: crianças que antes escondiam sua proximidade com o mangue agora disputam com orgulho o papel de porta-vozes e protetores do ecossistema.
Sons que resgatam a cultura local
Criado em 2002 pela educadora Claudia Ernest Dias na Escola Municipal Professor Vieira Fazenda, o projeto nasceu do desejo de suprir a escassez de equipamentos culturais em Barra de Guaratiba. A proposta pedagógica conecta o repertório musical diretamente à paisagem local, ensinando clássicos de compositores como Dorival Caymmi, Tom Jobim e Gilberto Gil, cujas obras celebram a relação humana com o mar e a natureza.
"Sempre buscamos conectar as aulas com a realidade deles. Unir canções praieiras ao reconhecimento de território fez com que as crianças vissem beleza no ambiente em que vivem, combatendo o preconceito de forma lúdica", afirma Claudia. Atualmente, as aulas abrangem flauta doce, flauta transversa, canto coral, expressão corporal e vivência cênica.
Expansão e reconhecimento da ONU
Com a transferência das atividades pedagógicas para o Sítio Roberto Burle Marx, patrimônio mundial reconhecido pela Unesco, o Flautistas da Marambaia ganhou fôlego para expandir. O projeto, gerido pelo Instituto Timbre, agora atende alunos de mais de nove escolas públicas da região de Guaratiba, tendo beneficiado mais de 1.200 crianças e jovens ao longo de sua trajetória.
A relevância do trabalho já rendeu ao projeto o Prêmio Light nas Escolas, condecorações da Secretaria Municipal de Educação e a prestigiada seleção pela Unesco como ação oficial da Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável. Financiado por leis de incentivo fiscal como a Lei Rouanet e a Lei do ISS, o Flautistas da Marambaia consolida-se como um exemplo de como a cultura e a ciência, quando caminham juntas, são capazes de recuperar a dignidade social e blindar o futuro ecológico das comunidades costeiras.