São Paulo | 13ºC
Dom, 06 de Setembro
Mercado Financeiro Principais ações negociadas na B3
B3 • Brasil
Cotações fornecidas por TradingView Valores sujeitos a atraso de mercado
Direitos Humanos

O nó invisível do racismo: por que o Brasil ainda falha ao medir o impacto da discriminação

Especialistas do novo núcleo Dara (Uerj) apontam apagão de dados e explicam a dificuldade de medir o impacto direto do racismo nas desigualdades do Brasil.

11 jul 2026 - 17h06 Joice Gomes   atualizado às 17h08
O nó invisível do racismo: por que o Brasil ainda falha ao medir o impacto da discriminação O professor Luiz Augusto Campos, coordenador do núcleo Dara da Uerj, alerta para retrocesso no acesso a dados sobre igualdade racial no país. (Imagem: Marcello Casal jr/Agência Brasil)

O Brasil convive com uma contradição metodológica profunda: embora seja um dos líderes globais na produção de pesquisas sobre desigualdade racial, o país ainda patina ao tentar mensurar cientificamente como o racismo, de forma direta e prática, opera para gerar esse abismo. Esse diagnóstico é o ponto de partida do recém-criado Dara (Dados e Análises do Racismo e do Antirracismo), um núcleo de pesquisas de ponta vinculado ao Instituto de Estudos Sociais e Políticos (Iesp) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

A diferença crucial entre desigualdade e racismo

Para o sociólogo e cientista político Luiz Augusto Campos, coordenador-geral do Dara, o cerne da questão reside na distinção entre mensurar o resultado final de séculos de exclusão e mapear as engrenagens ativas que perpetuam esse cenário no cotidiano. "É muito mais complexo estimar como o racismo impacta nas desigualdades raciais do que mensurar essas últimas", explica o especialista.

Na prática, isso significa que, enquanto o país sabe com precisão o tamanho do abismo de renda, escolaridade e representação política entre negros e brancos, as ferramentas para entender como a discriminação atua no mercado de trabalho ou na segurança pública de maneira causal ainda estão em estágio inicial. O uso de pesquisas experimentais como o envio de currículos idênticos mudando apenas fotos ou nomes tipicamente associados a diferentes grupos étnicos, amplamente consolidado no exterior, ainda engatinha no ambiente acadêmico nacional.

O retrocesso no acesso aos dados oficiais

A criação do Dara responde também a um cenário alarmante de apagão de dados. Segundo Campos, o Brasil registrou um retrocesso no processamento e no acesso a microdados públicos essenciais para subsidiar políticas de combate à discriminação. A falta de integração de bases oficiais e a descontinuidade de levantamentos longitudinais minam a capacidade dos gestores de avaliar os impactos de médio e longo prazo das ações afirmativas.

A fragmentação também atinge o terceiro setor e a própria academia. Diversas pesquisas de opinião e percepção pública sobre o racismo são conduzidas anualmente, mas a falta de diálogo metodológico entre elas impede a construção de séries históricas confiáveis. Um dos primeiros projetos de fôlego do Dara foca justamente em unificar e integrar essas diferentes bases de dados dispersas.

Representatividade que transforma a ciência

O surgimento do Dara reflete uma mudança demográfica interna na própria produção científica nacional. Composto por 18 profissionais altamente qualificados, o núcleo tem maioria de pesquisadores negros, uma realidade impensável há poucas décadas e que é fruto direto das primeiras gerações de cotistas que agora assumem a liderança de laboratórios acadêmicos.

Para o coordenador-geral, essa representatividade oxigena a ciência sem abrir mão do rigor técnico. "A diversidade amplia as perguntas, os objetos e as perspectivas da ciência, enquanto o rigor metodológico permite transformar essas questões em conhecimento sistemático, verificável e aberto ao debate público", defende Campos. Esse novo olhar ajuda a romper com narrativas conservadoras que tentam desidratar o debate antirracista, sob o falso pretexto de que as políticas afirmativas já teriam concluído sua missão histórica no país.

Em um momento de intensa disputa política em torno do futuro das cotas e do funcionalismo público, a produção de evidências incontestáveis surge como a principal linha de defesa para o aprimoramento dessas conquistas. Sem dados claros, o combate ao preconceito estrutural corre o risco de ser reduzido a uma guerra de narrativas ideológicas, esvaziando o impacto real de políticas públicas cruciais para a população.

Leia Também
Corpo de turista desaparecida no Guarujá é encontrado em Bertioga
Cotidiano Corpo de turista desaparecida no Guarujá é encontrado em Bertioga
Como denunciar violência sexual infantil: plataforma mapeia conselhos tutelares
Cotidiano Como denunciar violência sexual infantil: plataforma mapeia conselhos tutelares
Frente fria severa muda tempo no feriadão; veja onde há risco de tempestade e geada
Cotidiano Frente fria severa muda tempo no feriadão; veja onde há risco de tempestade e geada
Independência: 1,4 milhão de carros devem descer ao litoral; veja melhor horário
Cotidiano Independência: 1,4 milhão de carros devem descer ao litoral; veja melhor horário
Setembro Amarelo: Guarujá cria rede de apoio contra crise de saúde mental nas escolas
Cotidiano Setembro Amarelo: Guarujá cria rede de apoio contra crise de saúde mental nas escolas
Curso gratuito de bijuterias abre inscrições para renda extra
Cotidiano Curso gratuito de bijuterias abre inscrições para renda extra
Pacto entre Rio e União mira asfixia financeira e retoma de territórios de facções
Cotidiano Pacto entre Rio e União mira asfixia financeira e retoma de territórios de facções
Carreta da Odontologia oferece consultas gratuitas na Vila São José; veja prazos
Cotidiano Carreta da Odontologia oferece consultas gratuitas na Vila São José; veja prazos
DDM de Praia Grande inicia plantão 24 horas no combate à violência contra a mulher
Cotidiano DDM de Praia Grande inicia plantão 24 horas no combate à violência contra a mulher
Setembro de 2026: Saúde mental, proteção digital de crianças e marcos históricos dominam o mês
Cotidiano Setembro de 2026: Saúde mental, proteção digital de crianças e marcos históricos dominam o mês
Mais Lidas
Bahia e Palmeiras empatam em mata-mata tenso marcado por brilho de goleira
Esportes Bahia e Palmeiras empatam em mata-mata tenso marcado por brilho de goleira
Bahia e Palmeiras empatam por 1 a 1 na Arena Fonte Nova pelas quartas do Brasileirão Feminino. Yanne brilha e para pênalti de Bia Zaneratto.
Morte de pinguim em Praia Grande revela impacto de crise marinha no litoral
Cidades Morte de pinguim em Praia Grande revela impacto de crise marinha no litoral
A morte de um pinguim em Praia Grande alerta para a Síndrome do Pinguim Encalhado, reflexo de desequilíbrios ecológicos severos no Atlântico Sul.
Tarifa zero em São Vicente: saiba como usar o ônibus de graça neste domingo
Cidades Tarifa zero em São Vicente: saiba como usar o ônibus de graça neste domingo
São Vicente adota tarifa zero no transporte público municipal neste domingo (30) para a Parada Cívica. Veja regras, horários e evite imprevistos no trânsito.
Temporal de granizo deixa mortos e atinge 33 cidades no Rio Grande do Sul
Últimas Notícias Temporal de granizo deixa mortos e atinge 33 cidades no Rio Grande do Sul
Temporais com granizo causam duas mortes e estragos em 33 cidades do Rio Grande do Sul. Defesa Civil monitora novas frentes de instabilidade no estado.