Manter ambientes arejados e higienizados é fundamental para evitar gatilhos da asma durante os meses mais frios.
(Imagem: Mojpe/Pixabay)
Com a chegada das temperaturas mais baixas, o número de atendimentos em prontos-socorros por problemas respiratórios costuma disparar. Ao contrário do que muitos pensam, contudo, não é o ar frio em si o principal vilão para quem tem asma, mas sim as mudanças de comportamento impostas pela estação: o confinamento em locais fechados, o retorno de roupas guardadas há meses no armário e, principalmente, a alta circulação de vírus respiratórios.
A asma é uma doença inflamatória crônica das vias aéreas e, quando não controlada, qualquer resfriado comum pode se transformar em um gatilho para uma crise grave. Para as famílias, o impacto é sentido diretamente no dia a dia e, em muitos casos, resulta em hospitalizações que poderiam ser evitadas com medidas preventivas simples.
O perigo invisível das viroses no inverno
De acordo com o Dr. Emilio Pizzichini, coordenador da Comissão Científica de Asma da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT), o controle contínuo é a chave para atravessar o inverno sem sustos. "Se a asma não está bem tratada, bem controlada, o resfriado ou a virose adicionam mais uma inflamação na via aérea da pessoa, nos brônquios, e ela pode ter uma crise", explica o especialista.
Pizzichini reforça que a asma exige atenção durante o ano inteiro. A maior circulação de agentes infecciosos como o vírus da Influenza (gripe), o vírus sincicial respiratório (VSR) e a Covid-19 agrava o cenário. Por isso, manter a caderneta de vacinação atualizada é um dos pilares mais importantes de proteção. A imunização reduz drasticamente o risco de complicações que levam à internação hospitalar.
Crianças são as principais vítimas da falta de controle
O impacto da falta de controle preventivo da asma é evidente nos dados de saúde pública. Um levantamento realizado pela organização Umane, com base em dados do Datasus, revela um cenário alarmante: crianças e adolescentes de 0 a 14 anos representaram 70,5% das internações por asma em julho de 2024. Nesse mês, o país registrou 4.034 internações nessa faixa etária, quase o dobro das 2.108 ocorridas em janeiro do mesmo ano.
No acumulado do ano, a proporção se mantém elevada, com as crianças correspondendo a mais de 73% das mais de 52 mil internações pela doença no Brasil. Esse contingente sobrecarrega o sistema de saúde, especialmente na atenção primária, onde muitas vezes faltam diagnóstico preciso e testes funcionais para identificar se o chiado no peito da criança é de fato asma.
Como blindar a casa contra os gatilhos da asma
Para evitar que a poeira e os alérgenos domésticos desencadeiem crises, a higienização do lar precisa passar por adaptações no inverno. A pneumologista Marcela Marques, do Atendimento Multiassistencial de Saúde da Umane, destaca cuidados essenciais que fazem a diferença na rotina das famílias:
Ambiente arejado: Mesmo nos dias frios, é fundamental abrir as janelas durante o dia para que o sol entre e o ar circule, combatendo a umidade e o mofo.
Limpeza úmida: Esqueça a vassoura, que apenas levanta o pó e espalha os ácaros pelo ar. O ideal é usar um aspirador de pó ou passar um pano úmido apenas com água.
Cuidado com os tecidos: Dê preferência a edredons em vez de cobertores de lã, que acumulam mais poeira. Cortinas e tapetes devem ser lavados com frequência, e brinquedos de pelúcia devem ser evitados no quarto das crianças.
Longe do cigarro e dispositivos eletrônicos: A fumaça é extremamente irritante para as vias aéreas. A proximidade com fumantes, seja de cigarro comum, eletrônico ou narguilé, é um dos principais fatores de descompensação da asma.
A importância de um plano de crise estruturado
Muitas famílias só descobrem a gravidade da asma no momento de uma internação de emergência. A Dra. Marcela Marques lamenta que ainda falte orientação contínua nos serviços de saúde para iniciar o tratamento preventivo logo após o primeiro episódio grave.
Quando o paciente começa a utilizar a medicação preventiva prescrita pelo médico, novos episódios de internação tornam-se extremamente raros. Além disso, os pais devem receber um plano de crise estruturado: um roteiro claro sobre quais medicamentos administrar nos primeiros sinais de piora e quando é o momento exato de buscar o pronto-socorro.
Aglomerações e o papel das máscaras
O alergista e imunologista Pedro Giavina-Bianchi, da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (Asbai), aponta que o isolamento relativo em dias frios favorece a transmissão rápida de vírus. "Temos um aumento expressivo da prevalência de infecções virais nesta época e, por consequência, mais crises de asma", explica.
Para mitigar o contágio, Giavina-Bianchi sugere que asmáticos evitem contato próximo com pessoas gripadas ou resfriadas. O especialista também lembra que ferramentas simples aprendidas durante a pandemia, como o uso de máscaras faciais em locais muito cheios e fechados, continuam sendo altamente eficazes para bloquear o rinovírus, a influenza e outros agentes agressores.
Com o tratamento preventivo correto e pequenas mudanças nos hábitos domésticos, é possível garantir que o inverno passe sem sobressaltos, mantendo a saúde pulmonar de crianças e adultos totalmente protegida.