Praça da Liberdade Zumbi dos Palmares reuniu coletivos e empreendedoras durante a Semana Tereza de Benguela em Praia Grande.
(Imagem: Divulgação)
No último sábado, a Praça da Liberdade Zumbi dos Palmares, localizada no Bairro Maracanã, em Praia Grande, transformou-se no epicentro de um dos movimentos de afirmação cultural mais potentes do litoral paulista. O espaço recebeu a 6ª Semana Tereza de Benguela da Baixada Santista, uma iniciativa que vai muito além da celebração festiva, consolidando-se como um território de resistência, debate político e fomento à economia criativa liderada por mulheres negras.
O encontro acontece em um momento crucial de debate nacional sobre representatividade e igualdade de oportunidades. Ao trazer para a praça pública a memória de Tereza de Benguela, líder quilombola que desafiou o sistema colonial no século XVIII, o evento conecta o passado de luta diretamente com a realidade de milhares de mulheres que hoje chefiam lares, lideram comunidades e geram emprego na Baixada Santista. Trata-se de uma resposta prática à necessidade de valorização de histórias que a educação formal muitas vezes negligenciou.
O resgate de uma liderança histórica do Quilombo de Quariterê
Muitas vezes silenciada pela historiografia oficial, a figura de Tereza de Benguela ganhou o devido reconhecimento nacional com a sanção da Lei Federal 12.987/2014, que instituiu o dia 25 de julho como o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra. Ela governou o Quilombo de Quariterê, localizado no atual estado de Mato Grosso, liderando uma comunidade composta por negros e indígenas sob um modelo de governança extremamente organizado, que possuía parlamento próprio e sistema de defesa eficiente.
Durante as atividades em Praia Grande, essa herança foi resgatada de forma dinâmica. Palestrantes e ativistas locais destacaram que o modelo de liderança de Tereza serve como inspiração direta para o enfrentamento dos desafios contemporâneos, como o racismo institucional, a disparidade salarial e a violência de gênero que ainda afetam desproporcionalmente as mulheres negras no país.
A força da Baixada Santista no mapa da representatividade
A escolha da Praça da Liberdade Zumbi dos Palmares como sede da programação reforça o simbolismo do evento. O Bairro Maracanã acolheu coletivos de diversas cidades da região metropolitana, promovendo um intercâmbio de experiências que fortalece a rede de apoio regional. A união de diferentes vozes permitiu traçar um diagnóstico das demandas urgentes das mulheres negras da Baixada Santista, que vão desde o acesso qualificado à saúde pública até o incentivo a cargos de liderança no setor privado e na política municipal.
Além das discussões conceituais, a feira de economia criativa montada no local operou como uma vitrine viva do empreendedorismo feminino. Mulheres artesãs, estilistas e gastrônomas demonstraram que a autonomia financeira é um instrumento vital de libertação social. O fortalecimento desses pequenos negócios locais gera emprego direto nas comunidades, fazendo com que o capital circule dentro da própria periferia.
Cultura, arte e as novas perspectivas para o futuro regional
A programação cultural do evento também trouxe apresentações artísticas que resgatam as tradições de matriz africana, como o jongo, a capoeira e o samba de roda. Essas manifestações não apenas entretêm, mas cumprem o papel fundamental de preservar a ancestralidade e educar as novas gerações sobre a riqueza cultural que moldou a identidade brasileira.
O sucesso desta sexta edição consolida a Semana Tereza de Benguela como um marco fixo no calendário cultural da Baixada Santista. O desafio agora se volta para a consolidação de políticas públicas intermunicipais capazes de dar capilaridade a essas ações, garantindo que o debate sobre equidade racial e de gênero não se restrinja a datas comemorativas, mas se transforme em uma prática cotidiana de inclusão e reparação histórica.