Pesquisa da CNI aponta queda na intenção de investimento da indústria em 2026.
(Imagem: gerado por IA)
A intenção de investimento da indústria brasileira perdeu força em 2026. Pesquisa da Confederação Nacional da Indústria mostra que 56% dos empresários do setor pretendem investir ao longo do ano, percentual abaixo dos 72% registrados em 2025, quando a parcela de empresas que efetivamente fizeram aportes foi mais alta .
O dado ajuda a dimensionar um ambiente de maior cautela entre as companhias industriais. Embora mais da metade ainda mantenha planos de investimento, a diferença em relação ao ano passado indica desaceleração nas decisões de expansão e modernização, em um contexto marcado por crédito caro, exigências de garantias e incertezas econômicas persistentes .
Entre as empresas que planejam investir em 2026, a maior parte dos recursos não deve abrir uma nova frente de crescimento, mas sim dar continuidade ao que já estava em curso. Segundo a pesquisa, 62% dos aportes previstos serão destinados à sequência de projetos em andamento, enquanto 31% irão para novas iniciativas, sinalizando uma postura mais conservadora por parte do setor industrial .
Ao mesmo tempo, 23% dos empresários afirmam que não pretendem investir neste ano. Dentro desse grupo, 38% informaram que adiaram ou cancelaram projetos que estavam em andamento, um indicador relevante da perda de ímpeto em parte do parque industrial brasileiro .
Juros altos e incerteza pesam nas decisões
O recuo da intenção de investimento aparece associado a um cenário econômico mais difícil para a indústria. A avaliação da CNI é que o ambiente herdado do ano passado segue pressionado, especialmente pelo nível elevado dos juros, que encarece o financiamento e reduz a disposição das empresas para assumir novos compromissos de longo prazo .
Esse quadro também ajuda a explicar por que tantas companhias continuam dependentes do próprio caixa para bancar investimentos. Para 2026, 62% das empresas pretendem usar recursos próprios, enquanto apenas 28% planejam recorrer a empréstimos ou financiamento em bancos e outras instituições financeiras. Outros 11% ainda não definiram a origem do dinheiro que será usado nos aportes .
Na prática, isso significa que o investimento industrial fica mais concentrado nas empresas com maior capacidade de autofinanciamento. Quando o custo do crédito sobe e as exigências para tomada de empréstimo aumentam, companhias menores ou mais pressionadas pelo fluxo de caixa tendem a adiar projetos, reduzir escopo ou simplesmente cancelar planos que antes pareciam viáveis .
Os obstáculos apontados pelas empresas em 2025 ajudam a entender por que a cautela se prolonga em 2026. As incertezas econômicas foram citadas por 63% das companhias com planos de investimento, seguidas por queda de receitas, mencionada por 51%, incertezas no setor, com 47%, expectativa de baixa demanda, com 46%, e problemas tributários, com 45% .
Onde a indústria quer aplicar recursos
Mesmo com a redução do apetite por investimento, as prioridades das empresas seguem relativamente claras. Entre aquelas que pretendem aportar recursos em 2026, 48% dizem que o objetivo principal é melhorar processos produtivos, enquanto 34% querem ampliar a capacidade de produção. Há ainda 8% com foco em lançar novos produtos e 5% interessados em adotar novos processos produtivos .
Esses números sugerem que a indústria continua priorizando ganhos de eficiência e ajustes operacionais antes de movimentos mais agressivos de expansão. Em vez de apostar majoritariamente em novos mercados ou grandes saltos de capacidade, muitas empresas parecem concentradas em elevar produtividade, reduzir custos e reforçar a competitividade dentro de operações já existentes .
O destino geográfico dos investimentos também reforça essa leitura. A maior parte dos recursos deve permanecer voltada ao mercado brasileiro: 67% das empresas planejam investir com foco principal ou exclusivo no mercado interno, 24% pretendem atender simultaneamente ao mercado doméstico e ao externo, e apenas 4% têm o mercado internacional como prioridade .
Esse perfil indica que a indústria ainda enxerga no consumo e na demanda internos o principal espaço de retorno para os aportes previstos em 2026. Também mostra que a expansão com orientação mais forte para exportação continua restrita a uma fatia menor do setor, em um contexto de mudanças na política comercial internacional e de maior incerteza global .
O que o retrato de 2025 revela sobre 2026
O desempenho do ano passado oferece pistas importantes sobre a transição para 2026. Em 2025, 72% das empresas da indústria de transformação realizaram investimentos, mas nem todas conseguiram executar integralmente o que haviam planejado: 36% investiram conforme o plano inicial, 29% investiram parcialmente, 4% adiaram aportes para o ano seguinte, 3% postergaram sem previsão de retomada e 2% cancelaram os projetos .
O padrão mostra que, mesmo quando há intenção de investir, a execução pode ser comprometida por condições macroeconômicas adversas. Esse ponto é relevante porque a queda da intenção em 2026 ocorre depois de um ano em que parte das empresas já teve dificuldade para transformar planejamento em investimento efetivo, o que amplia a percepção de cautela no setor .
Outro aspecto importante do levantamento é a qualidade do investimento realizado. Em 2025, quase 80% das empresas que investiram consideraram o desenvolvimento de capital humano, com foco em qualificação, produtividade e segurança do trabalho, um fator importante ou muito importante. Inovação tecnológica apareceu com 76%, impacto ambiental com 65% e eficiência energética com 64% .
Isso mostra que o investimento industrial não está restrito à compra de ativos físicos. Há uma combinação entre modernização operacional, capacitação de trabalhadores, adoção de tecnologia e preocupação com padrões de eficiência, o que tende a influenciar a forma como os recursos serão distribuídos também em 2026 .
- Em 2026, 56% das indústrias pretendem investir, contra 72% que realizaram aportes em 2025 .
- Entre os investimentos previstos, 62% serão para continuar projetos já iniciados e 31% para novas iniciativas .
- O capital próprio seguirá como principal fonte de financiamento para 62% das empresas, acima do uso de crédito bancário, citado por 28% .
- Os principais objetivos são melhorar processos produtivos, com 48%, e ampliar a produção, com 34% .
- O mercado interno continuará no centro da estratégia de 67% das empresas que planejam investir .
- Entre os tipos de investimento feitos em 2025, destacaram-se compra de máquinas e equipamentos, modernização de plantas, revitalização de equipamentos e ampliação ou aquisição de instalações .
O retrato traçado pela pesquisa indica um setor industrial ainda disposto a investir, mas com menor fôlego e mais seletividade. Em um ambiente de custos financeiros elevados, a tendência é que avancem principalmente os projetos considerados essenciais para produtividade, manutenção da operação e ganhos de eficiência, enquanto expansões mais ambiciosas ficam mais sujeitas a adiamentos .