A Beija-Flor de Nilópolis, atual campeã do Carnaval do Rio de Janeiro, escolheu o Bembé do Mercado como enredo para 2026. A manifestação religiosa afro-brasileira, conhecida como o maior candomblé de rua do mundo, acontece anualmente em Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano.

O evento celebra a abolição da escravatura em 13 de maio, data da Lei Áurea de 1888, mas denuncia sua incompletude, sem reparações aos escravizados. Iniciado em 1889 por João de Obá, o Bembé do Mercado transforma ruas e o Mercado Municipal em terreiro vivo de fé e resistência.

Reconhecido como Patrimônio Imaterial da Bahia pelo IPAC e do Brasil pelo IPHAN desde 2019, o Bembé do Mercado reúne dezenas de terreiros em uma festa que mistura dança, música, culinária e rituais aos orixás.

Origem e evolução do Bembé

O Bembé do Mercado surgiu logo após a assinatura da Lei Áurea, quando o babalorixá João de Obá montou um caramanchão na Ponte do Xeréu para agradecer pela liberdade com tambores e danças. Apesar das perseguições religiosas da época, a celebração persistiu, migrando para o Largo do Mercado Municipal após sua reconstrução nos anos 1930.

Ao longo dos anos, lideranças como Pai Tidu e Mãe Lídia mantiveram a chama acesa. Atualmente, sob a presidência de Pai Pote, a associação congrega 65 terreiros oficiais, com mais de 100 participando, atualizando a tradição com articulação política e cultural para preservar o evento contra intolerância religiosa.

Pai Pote, que participa desde os seis anos, vê no Bembé do Mercado um símbolo de reafirmação negra, incluindo marisqueiras, farinheiras, capoeiristas e feirantes, todos unidos na fé do povo de santo.

  • O termo "bembé" significa "bater tambor" em nagô, base linguística do candomblé.
  • A festa ocorre na segunda dezena de maio, durando dias com xirês públicos e oferendas.
  • Financiada historicamente pelo "Livro de Ouro", com contribuições comunitárias.

Enredo da Beija-Flor na Sapucaí

O carnavalesco João Vitor Araújo, em seu terceiro ano à frente da Azul e Branca de Nilópolis, conecta o Bembé do Mercado à tradição da escola de enredos sobre ancestralidade preta. Após homenagear Laíla em 2025, que rendeu o título, ele estende a narrativa para além da Quarta de Cinzas, com seis setores representando dias de festa.

O desfile inicia e encerra com branco e água, simbolizando equilíbrio entre o sério e o carnavalesco. A setorização foi aprovada em jogo de búzios por Pai Pote, aos pés de Ogum, garantindo licença espiritual para "carnavalizar" elementos sagrados sem desrespeito.

A sinopse enfatiza: "num país que aboliu a escravidão com uma canetada, sem nenhuma reparação, ocupar é — e sempre foi — nossa forma de autorreparação". O samba-enredo, composto por 12 autores e interpretado por Nino Milênio e Jéssica Martin, ecoa essa força com versos como "Deixa girar que a rua virou Bembé".

  • Beija-Flor desfila na segunda noite, 16 de fevereiro de 2026, às 23h30, após Mocidade.
  • Intérpretes sucedem Neguinho da Beija-Flor, que se despediu em 2025 após 50 anos.
  • Comunidade nilopolitana abraçou o enredo, vendo nele sua própria identidade de luta.

Impacto cultural e expectativas

Levar o Bembé do Mercado à Sapucaí projeta para milhões uma tradição baiana pouco conhecida nacionalmente, valorizando candomblés de todo o Brasil e do mundo, como destaca Pai Pote. A escola busca bicampeonato, reforçando seu DNA de resistência negra.

João Vitor Araújo celebra enredos autorais que resgatam "entranhas desse país", enquanto Nino Milênio e Jéssica Martin preparam-se para o desafio de suceder lendas, confiantes no samba "excelente". A dupla descreve o processo como mágico, com foco em respeito à cultura.

Atualmente, em fevereiro de 2026, com desfiles iminentes, o enredo ganha relevância ao coincidir com restaurações no Mercado Municipal de Santo Amaro, financiadas pelo Novo PAC, preservando o espaço sagrado do Bembé do Mercado.

Essa homenagem importa por visibilizar a fé afro-brasileira, combatendo preconceitos e inspirando ocupações culturais. Para o futuro, pode impulsionar turismo em Santo Amaro, salvaguarda de terreiros e debates sobre reparação histórica no Brasil.

  • O enredo destaca oferendas a Iemanjá, Oxum e outros orixás, com ebós e defumações.
  • Elementos como culinária afro e Negro Fugido enriquecem a narrativa visual.
  • Expectativa de título reforça Beija-Flor como defensora da cultura preta.

O Bembé do Mercado na Beija-Flor não é só desfile, mas ponte entre Recôncavo Baiano e Baixada Fluminense, unindo comunidades em axé e samba.