Amazônia Negra ganha destaque no carnaval 2026 com o enredo da Mangueira sobre Mestre Sacaca.
(Imagem: Fernando Frazão/Agência Brasil)
A Estação Primeira de Mangueira está pronta para brilhar na Marquês de Sapucaí no carnaval 2026. A escola anunciou um enredo poderoso que coloca a Amazônia Negra como protagonista absoluta. O tema escolhido resgata as raízes afro-indígenas do Amapá por meio da figura lendária de Mestre Sacaca.
Esse curandeiro, folião e defensor da floresta virou símbolo de resistência e sabedoria ancestral. A Verde e Rosa mergulha nos rituais, curas e danças do povo tucuju para criar um espetáculo inesquecível. É o início do triênio do centenário da agremiação, o que aumenta a expectativa dos sambistas.
O anúncio oficial veio com emoção na quadra da escola. Torcedores lotaram o espaço para acompanhar a definição do samba-enredo. A parceria que venceu trouxe versos que unem o Norte ao Sudeste brasileiro em uma celebração vibrante.
Mestre Sacaca inspira o enredo
Mestre Sacaca do Encanto Tucuju, O Guardião da Amazônia Negra é o nome completo do enredo. Assinado pelo carnavalesco Sidnei França, com pesquisa de Felipe Tinoco e Sthefanye Paz, o tema evoca o xamã babalaô que navegou rios e florestas do Amapá. Ele personifica a força das populações tradicionais da região.
No ritual do Turé, a Mangueira invoca o espírito do curandeiro para guiar o desfile. São cinco setores que exploram encantos tucujus: da floresta aos tambores, passando pelas curas e rios. Cada parte revela segredos da identidade amapaense, misturando jenipapo, urucum e ritmos ancestrais.
A sinopse oficial destaca a jornada de aprendizado de Sacaca com povos como Galibi Kali’na, Palikur e Wajãpi. Quilombos e ribeirinhos também entram na narrativa, mostrando como as águas do Oiapoque ao Jari carregam histórias de vida e mistério.
- Turé para o Xamã Babalaô: ritual de agradecimento aos ancestrais na floresta.
- Mergulho nas afluências: navegação pelos rios e contatos com indígenas e quilombolas.
- Poder da cura: receitas de garrafadas e saberes medicinais da mata.
- Tambores ressoam: marabaixo, batuque e festas como Sairé do Carvão.
- Guardião da Amazônia Negra: transformação em elementos da natureza como amapazeiro e onça.
Samba-enredo une povos do Brasil
O samba vencedor, número 15, foi composto por Pedro Terra, Tomaz Miranda, Joãozinho Gomes, Paulo César Feital, Herval Neto e Igor Leal. Interpretado por Douglas Diniz, o hino fala de raízes no extremo Norte e invoca o mestre para a avenida. Versos como “Chamei o povo daqui, juntei o povo de lá / Na Estação Primeira do Amapá” emocionam pela ponte cultural.
A disputa reuniu 22 sambas, com seis vindos diretamente do Amapá após festival local. Governador Clécio Luís e secretária de Cultura Clícia Vieira celebraram a vitória, chamando de “hino da Mangueira no carnaval 2026”. A letra menciona Yá Benedita de Oliveira, mãe do Morro, benzedora que abençoa o jeito tucuju.
Letra completa pulsa com referências ao marabaixo, preto velho e encantaria de benzedeira. “Salve o curandeiro, doutor da floresta / Preto velho, saravá” vira grito de guerra. A composição eterniza a Amazônia Negra no compasso do samba, misturando caxixi e tamborim.
Preparativos e ordem do desfile
A Mangueira desfilará no domingo de carnaval, 15 de fevereiro, como quarta escola do Grupo Especial. Antes dela, Acadêmicos de Niterói, Imperatriz Leopoldinense e Portela. A posição permite caprichar nos detalhes, com fantasias que recriam a palafita, o pakará e as saias de buriti.
Protótipos de alas comerciais já circulam nas redes da escola. Comissão de frente promete dar corpo e alma à Amazônia Negra, com Daniel e Taciana no Manguebeat. A Nação Verde e Rosa sonha com o título, apostando na brasilidade do Norte para conquistar jurados.
Presidenta Guanayra Firmino e vice Moacyr Barreto lideram os ensaios intensos. A quadra vira ponto de encontro para amapaenses e mangueirenses. Esse enredo reforça o DNA da escola: exaltar o povo, a cultura e a resistência em verde e rosa.
Impacto cultural do tema
A escolha coloca os holofotes no Amapá, estado muitas vezes esquecido no mapa cultural. Tradições como Missa dos Quilombos e Encontro dos Tambores ganham visibilidade nacional. É chance de mostrar como a Amazônia Negra preserva saberes que curam corpo e alma.
Especialistas elogiam a pesquisa profunda, que vai além do clichê. Livros sobre Sacaca inspiram alas que engarrafam a cura e navegam no Uaçá. A Mangueira cumpre sua missão de brasilidade, unindo favela ao quilombo em um transe coletivo.