Maquinário de mineração de ativos digitais apreendido pela Polícia Militar em São Paulo.
(Imagem: gerado por IA)
Um ruído constante e incomum, semelhante ao funcionamento ininterrupto de exaustores industriais, levou a Polícia Militar do Estado de São Paulo (PMESP) a desmantelar um sofisticado bunker de mineração de criptomoedas na Zona Sul da capital paulista. O caso ocorreu durante um patrulhamento de rotina no bairro de Interlagos, onde os agentes desconfiaram do barulho suspeito vindo de uma residência aparentemente deserta.
Ao entrarem no imóvel, os policiais se depararam com uma megaestrutura tecnológica avaliada em mais de R$ 500 mil. No local, operavam cerca de 30 máquinas de mineração de ativos digitais de última geração. O maquinário funcionava de forma totalmente automatizada, sem a presença de nenhum responsável físico no momento da abordagem.
A engrenagem do crime: o furto de energia como pilar financeiro
A mineração de criptomoedas, especialmente de moedas como o Bitcoin, exige um consumo de eletricidade colossal devido à necessidade de processamento de dados complexos de forma contínua. Para viabilizar a operação financeiramente e maximizar as margens de lucro, os responsáveis estruturaram uma ligação clandestina direta na rede de distribuição, o popular "gato de energia".
Técnicos da concessionária Enel Distribuição São Paulo foram acionados para periciar o local. Eles constataram que a fiação de alta capacidade havia sido manipulada diretamente do poste da rua para desviar uma quantidade maciça de megawatts, suficiente para abastecer dezenas de residências da região. Essa fraude não apenas causava prejuízo financeiro para a distribuidora, mas também representava um risco severo de sobrecarga na rede local e risco iminente de incêndio.
Como funcionava a estrutura de R$ 500 mil
A estrutura montada na residência contava com sistemas avançados de refrigeração e isolamento acústico improvisado, uma tentativa de mitigar o calor extremo gerado pelas placas de processamento e ocultar o som dos exaustores. No entanto, o ruído contínuo acabou entregando o esquema clandestino.
As 30 máquinas apreendidas pela polícia utilizavam processadores de alta performance (ASICs), projetados exclusivamente para decifrar algoritmos criptográficos. O alto custo de aquisição desses equipamentos reflete a profissionalização desse tipo de atividade ilícita no ambiente urbano nacional, migrando de grandes galpões industriais para bairros residenciais.
Desdobramentos legais e o avanço de crimes eletrônicos
O caso foi registrado no distrito policial da região e os equipamentos foram apreendidos para perícia técnica da Polícia Civil. A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) instaurou um inquérito para identificar os proprietários do imóvel e os operadores do sistema de mineração, que deverão responder por furto de energia qualificado — crime previsto no Artigo 155 do Código Penal — além de crimes financeiros e lavagem de dinheiro, a depender da origem dos recursos utilizados para comprar o aparato.
Especialistas em segurança cibernética apontam que o roubo de energia para mineração de ativos digitais tem se tornado uma modalidade criminosa crescente nas metrópoles brasileiras. O desdobramento das investigações agora mira o rastreamento das carteiras digitais que recebiam os fundos minerados no local, o que ajudará a identificar a liderança por trás do esquema.