O grupo Bate-bolas Brilhetes de Anchieta, formado só por mulheres, está pronto para mais uma saída marcante nas ruas do subúrbio carioca. Com 38 integrantes de idades variadas, elas guardaram a sete chaves a fantasia do 13º ano de desfiles, preparada em seis meses de trabalho discreto.

A expectativa cresce para esta sexta-feira, 13 de fevereiro, quando o portão do barracão se abre ao som de fogos e funk, revelando o traje completo. O bate-bolas representa uma tradição viva do carnaval de rua no Rio de Janeiro, com bolas de borracha batendo no chão e fantasias cheias de brilho.

Essas mulheres, de profissões diversas como professoras, cuidadoras e bombeiras, transformam o carnaval em espaço de expressão e união. O grupo surgiu da vontade de protagonizar a folia, saindo da sombra dos homens.

Origem e empoderamento das Brilhetes

Fundado em 2013 pela produtora cultural Vanessa Amorim, o Brilhetes de Anchieta veio para mudar a dinâmica tradicional dos bate-bolas. Antes, mulheres auxiliavam nos bastidores, cuidando de crianças ou bandeiras, enquanto os homens lideravam.

"As mulheres ficavam sempre na posição de mãe e esposa e nunca como brincante", relata Vanessa. Hoje, o grupo é uma segunda família para integrantes como Alexandra Cunha, dona de casa de 44 anos, que emociona-se com cada detalhe da preparação.

Estudantes como Ana Júlia Guimarães, de 17 anos, estreiam no desfile ao lado da mãe, superando o medo infantil que tinham dos bate-bolas. Elas trabalham no barracão com prazer, montando roupas e criando laços afetivos.

  • Grupo fundado em 2013 com 38 integrantes atuais.
  • Idades de 3 a 58 anos, com ocupações variadas.
  • Preparação inclui gliter, lacres e buá manual.
  • Saída com som de bailes e bar para custear despesas.

Tradição dos bate-bolas no carnaval carioca

Os bate-bolas, também chamados clóvis, são patrimônio cultural imaterial do Rio desde 2012. Surgidos no início do século XX em bairros como Santa Cruz, eles animam o subúrbio com fantasias temáticas, máscaras e o som característico das bolas.

Diferente do passado, quando assustavam crianças, hoje focam na arte e na alegria. Grupos como Brilhetes e Turma do Brilho participam de bloquinhos no centro e zona sul, além de apoiarem outras turmas.

Caroline Bottino, professora de Turismo da Uerj, destaca a organização dos bate-bolas, que se registram para editais, mas recebem pouco apoio público comparado às áreas turísticas centrais.

Essa resistência periférica descentraliza o carnaval, comparável às escolas de samba das comunidades. No entanto, críticas apontam segregação nos investimentos da prefeitura.

  • Reconhecidos como patrimônio em 2012 pela prefeitura.
  • Fantasias incluem macacão, máscara, casaca gliterada e buá.
  • Custo por fantasia varia de R$ 1,5 mil a R$ 3 mil.
  • Financiamento via parcelas mensais de R$ 150.

Homenagem à Conceição Evaristo em 2026

Este ano, as Brilhetes homenageiam a escritora mineira Conceição Evaristo, que completa 80 anos em novembro. Frases como “eles combinaram de nos matar, mas a gente combinamos de não morrer” inspiram o grupo, majoritariamente negro.

A camiseta do kit traz a citação, celebrando a escrevivência de Conceição, professora aposentada de comunidade. Vanessa enfatiza a importância de reverenciar artistas negras em vida.

Em 2025, o tema foi Marilyn Monroe, explorada como símbolo sexual apesar do talento. Anos anteriores trouxeram mãe natureza, mostrando compromisso com causas sociais nas fantasias.

A máscara foi pintada à mão, com LEDs e pinturas especiais para brilhar. O aroma de morango marca o “cheirinho” típico dos bate-bolas, elemento icônico da tradição.

  • Homenagem a Conceição Evaristo pelos 80 anos.
  • Máscaras cobrem o rosto para anonimato.
  • Aroma de morango como essência do ano.
  • Participação em concursos de fantasias na Terça-feira.

Desafios e futuro dos bate-bolas femininos

As Brilhetes buscam inscrições remotas no concurso de fantasias da Riotur, pois o deslocamento presencial é inviável para grupos periféricos. Vanessa cobra reconhecimento para fantasias de qualidade.

A falta de apoio estatal evidencia desigualdades no carnaval, priorizando o turismo central. Ainda assim, a resistência garante a sobrevivência dessa manifestação suburbana há gerações.

Para o futuro, o grupo planeja mais saídas em bloquinhos e apoio mútuo entre turmas. O bate-bolas feminino inspira outras mulheres a ocuparem o espaço público na folia.

O impacto vai além da festa: fortalece identidades, promove empoderamento e preserva cultura periférica. Com o carnaval 2026 se aproximando, as Brilhetes prometem iluminar as ruas de Anchieta e além.

Essa trajetória mostra como tradições evoluem, incorporando diversidade e voz feminina. O desfile de 13 de fevereiro pode ser o marco para mais grupos semelhantes.