Unidos da Tijuca vai contar a vida de Carolina Maria de Jesus no Carnaval 2026, destacando sua luta na favela e sucesso literário.
(Imagem: Tânia Rêgo/Agência Brasil)
A Unidos da Tijuca escolheu Carolina Maria de Jesus como tema para seu desfile no Carnaval 2026. A escola abrirá a apresentação com a figura da menina Bitita, apelido dado à escritora pelo avô, simbolizando resistência e ancestralidade na língua changana de Moçambique.
Nascida em 1914 em Sacramento, Minas Gerais, Carolina Maria de Jesus migrou para São Paulo em busca de oportunidades. Enfrentou racismo e pobreza extrema, vivendo na favela do Canindé, onde sustentou três filhos como catadora de papel.
Seus diários, escritos à mão, revelaram a dura realidade das favelas. Em 1960, o livro Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada vendeu 10 mil exemplares na semana de lançamento e foi traduzido para 14 idiomas, alcançando mais de 40 países.
Biografia marcada por superação
Influenciada pelo avô Benedito, alforriado e contador de histórias, Carolina Maria de Jesus aprendeu o valor das palavras desde criança. Com apenas dois anos de estudo formal, desenvolveu talento para escrever e compor músicas.
Em São Paulo, trabalhou como empregada doméstica e catadora. Na favela do Canindé, registrou preconceitos, feminicídios e a ausência de desenvolvimento social para os pobres. Esses relatos formaram a base de suas obras mais impactantes.
O sucesso inicial permitiu que ela saísse da favela e comprasse uma casa no Alto de Santana. Recebeu homenagens da Academia Paulista de Letras e viajou à Argentina em 1961 para receber a Ordem Caballero del Tornillo.
- Carolina Maria de Jesus publicou obras como Casa de Alvenaria (1961), Pedaços da Fome (1963) e Provérbios (1965).
- Seus livros denunciam desigualdades sociais e empoderam vozes periféricas.
- Morreu em 13 de fevereiro de 1977, deixando legado como uma das maiores escritoras negras brasileiras.
Enredo biográfico na avenida
O carnavalesco Edson Pereira planejou um desfile cronológico sobre Carolina Maria de Jesus. Serão apresentadas múltiplas facetas, como a doméstica, a grávida, a louca do Canindé, a catadora, a escritora e a do carnaval.
A terceira alegoria homenageia Quarto de Despejo, feita de papelão e materiais alternativos, remetendo à profissão de catadora. O enredo destaca o apagamento histórico de figuras como ela e a força da mulher negra.
A escola desfilará na segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026, na Marquês de Sapucaí, fechando o segundo dia do Grupo Especial. Outras agremiações também apostam em biografias e cultura negra nos enredos deste ano.
Impacto cultural e relevância atual
Escolher Carolina Maria de Jesus reflete o momento de resgate de narrativas apagadas pela história oficial. Seus escritos continuam atuais, apontando problemas como racismo e desigualdade que persistem.
Na Unidos da Tijuca, a diretora de carnaval Elisa Fernandes, mulher negra, vê no enredo um presente. Ela introduziu psicólogos nos bastidores para cuidar da saúde mental dos profissionais, sob pressão do maior espetáculo da Terra.
O desfile pode reacender interesse pela obra de Carolina Maria de Jesus, inspirando novas gerações. Com potencial de emplacar no samba-enredo, reforça o papel do carnaval em preservar memórias culturais.
Os ensaios técnicos já mostram fantasias vibrantes, como trajes inspirados em borboletas e flores representando empoderamento. A expectativa é de um desfile emocionante que botará o dedo nas feridas sociais.
- Ordem dos desfiles: Tijuca fecha segunda-feira, após Mocidade, Beija-Flor e Viradouro.
- Enredos vizinhos incluem Rita Lee (Mocidade) e Bembé do Mercado (Beija-Flor).
- Grupo Especial tem 12 escolas, com foco em biografias e identidade negra em 2026.
Legado que transcende o carnaval
Carolina Maria de Jesus transformou sofrimento em arte literária, provando que vozes periféricas podem ecoar mundialmente. O enredo da Unidos da Tijuca coloca sua história no centro da Sapucaí, palco de milhões.
Para o público, o desfile oferece lição de resiliência e importância da educação. Pode impulsionar vendas de seus livros e debates sobre inclusão social.
No futuro, espera-se que mais escolas explorem figuras semelhantes, diversificando narrativas. O Carnaval 2026 reforça o samba como ferramenta de transformação cultural e social.