Operações de GLO no Rio de Janeiro acumulam denúncias de abusos em comunidades durante grandes eventos esportivos.
(Imagem: gerado por IA)
O brilho dos refletores nos estádios durante a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016 muitas vezes ofuscou uma realidade brutal vivida nas periferias. Por trás da fachada de festa, as operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) transformaram comunidades do Rio de Janeiro em verdadeiros laboratórios de controle militar.
O documentário "Cheiro de Diesel", que acaba de estrear, mergulha exatamente nesse período para expor como a segurança pública foi utilizada como justificativa para suspender direitos fundamentais. Dirigido por Natasha Neri e Gizele Martins, o filme dá voz a quem sentiu o impacto das ocupações de perto.
Na Maré, um dos maiores complexos de favelas da cidade, a ocupação durou 14 meses e custou R$ 350 milhões aos cofres públicos. Mas o preço mais alto foi pago pelos moradores, que relatam um cotidiano de invasões de domicílio e uma vigilância que transformou crianças em alvos de detenção.
O laboratório da intervenção e o rastro de impunidade
A estratégia adotada na Maré não foi um caso isolado, mas sim um ensaio para o que viria a ser a intervenção federal de 2018. Sob o comando de figuras que mais tarde ocupariam altos cargos na política nacional, as GLOs tornaram-se uma ferramenta política frequente em momentos de crise.
Um dos relatos mais contundentes do filme é o de Vitor Santiago. Em 2015, ele foi baleado por militares enquanto voltava para casa; o resultado foram 98 dias em coma, uma perna amputada e a paraplegia. No entanto, a Justiça Militar acabou por absolver o autor dos disparos.
O longa levanta um debate urgente sobre a constitucionalidade de permitir que militares julguem seus próprios pares em crimes cometidos contra civis. Para as diretoras, esse modelo alimenta um ciclo de impunidade que desencoraja denúncias e perpetua a violência estatal.
Uma memória necessária para o futuro da segurança
Além das denúncias, "Cheiro de Diesel" é um exercício de memória coletiva. Utilizando imagens de arquivo de comunicadores comunitários e inquéritos oficiais, a obra constrói um mosaico do que significa viver sob um estado de exceção temporário no cotidiano urbano.
Com sessões seguidas de debate em diversas capitais, o documentário não busca apenas olhar para o passado, mas questionar a atual gestão da segurança pública no Brasil. Afinal, as marcas deixadas pelo diesel dos tanques nas ruas da Maré ainda estão longe de desaparecer.