Hospital Albert Einstein é alvo de ação do MPF por falta de ações afirmativas em residência médica.
(Imagem: gerado por IA)
O Ministério Público Federal (MPF) protocolou uma ação civil pública contra a Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Hospital Albert Einstein, uma das instituições de saúde mais prestigiadas da América Latina, por descumprir a política de cotas em seus programas de residência médica. A medida busca corrigir o que os procuradores classificam como uma barreira injustificada ao acesso de minorias a uma das etapas mais cruciais da formação médica no país.
A ação foca especificamente no processo seletivo de 2026. Segundo o MPF, o Einstein ignorou as diretrizes federais que estabelecem a reserva de vagas para candidatos negros, indígenas, quilombolas, pessoas com deficiência (PcD) e pessoas trans. O pedido enviado à Justiça Federal de São Paulo é incisivo: a instituição deve publicar editais complementares imediatamente para garantir que esses grupos tenham o direito à reserva de vagas preservado ainda no atual ciclo de seleção.
O argumento jurídico: Instituição privada com dever público
Um dos pontos centrais da acusação reside na natureza financeira e operacional do Hospital Albert Einstein. Embora seja uma entidade de direito privado, a instituição goza de benefícios que, segundo o MPF, a vinculam diretamente ao interesse público. A procuradora da República Ana Letícia Absy, que assina a peça, destaca que o hospital é beneficiário de uma expressiva imunidade tributária federal, deixando de recolher contribuições que seriam destinadas à seguridade social.
Além da questão fiscal, os programas de residência médica do Einstein não ocorrem de forma isolada do sistema público. O treinamento em serviço é realizado no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), seguindo regulamentações do Ministério da Saúde atualizadas em 2025. "O gozo de benefícios fiscais e a utilização de recursos públicos conferem à entidade obrigações que incluem a adoção de medidas concretas voltadas à promoção da igualdade material", sustenta a procuradora na ação.
O abismo estatístico na residência médica
Para fundamentar a necessidade da intervenção judicial, o MPF apresentou dados que revelam uma disparidade profunda na composição do corpo de residentes da instituição. Enquanto negros representam a maior parte da população brasileira, eles ocupam apenas 27,5% das vagas de residência no Albert Einstein. No extremo oposto, 70,1% dos médicos residentes da instituição se autodeclaram brancos.
Para o Ministério Público, esses números não são meras estatísticas de mercado, mas o reflexo de um sistema de seleção que, ao não aplicar cotas, acaba perpetuando desigualdades históricas. A implementação das ações afirmativas é vista pelos procuradores como fundamental para garantir que a elite médica brasileira comece a representar, de forma efetiva, a pluralidade étnica e sociocultural da sociedade que atende.
Impactos e desdobramentos
A decisão de acionar o Einstein ocorre meses após a Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão emitir uma nota técnica (nº 10/2026) concluindo que a reserva de vagas em residências médicas não é uma escolha opcional para as instituições de ensino, mas um dever legal. O entendimento é que, ao formar especialistas, o hospital está prestando um serviço público essencial delegado pelo Estado.
Caso a Justiça acate o pedido do MPF, o Hospital Albert Einstein terá que reorganizar seu calendário de provas e seleções para incluir as vagas reservadas. Isso pode gerar um efeito cascata em outras instituições privadas de elite que também recebem isenções fiscais ou mantêm convênios com o SUS, forçando uma readequação em massa dos editais de residência médica em todo o estado de São Paulo.
Em resposta aos questionamentos, a administração do Hospital Albert Einstein informou, por meio de nota enviada à imprensa, que ainda não foi oficialmente citada sobre a ação civil pública e que, por essa razão, não tem conhecimento detalhado sobre os termos do processo para se manifestar. O desenrolar do caso agora depende da análise de um pedido de liminar, que pode suspender ou alterar o cronograma do processo seletivo de 2026 a qualquer momento.