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Sociólogo Rodrigo Reduzino analisa samba-enredo como ato político nas escolas de samba da ditadura militar

08 fev 2026 - 12h51 Joice Gomes   atualizado às 12h53
Sociólogo Rodrigo Reduzino analisa samba-enredo como ato político nas escolas de samba da ditadura militar O samba-enredo funcionou como grito de resistência durante a ditadura, segundo sociólogo Rodrigo Reduzino, em pesquisa que inspirou documentário. (Imagem: Gilberto Costa/Agência Brasil)

O sociólogo Rodrigo Antonio Reduzino define o samba-enredo como um potente enunciado político produzido pelas escolas de samba. Em recente entrevista, ele explora como essas músicas se tornaram instrumentos de contestação durante os anos finais da ditadura militar brasileira.

Sua pesquisa de doutorado, intitulada Enredos da Liberdade: o grito das Escolas de Samba pela Democracia, foca nos samba-enredo do Grupo Especial do Rio de Janeiro na década de 1980. Esse recorte temporal inclui o declínio do regime militar, a mobilização pelas Diretas Já e a eleição indireta de Fernando Collor em 1989.

O estudo acadêmico deu origem a um documentário homônimo, lançado em cinco episódios em plataforma de streaming. A produção mergulha nos bastidores dos samba-enredo que ousaram desafiar as restrições impostas pelo regime nos anos 80.

Escolas como espaço de luta

Nos anos de maior repressão, os carnavalescos e compositores de samba enfrentavam monitoramento constante, censura prévia e até detenções arbitrárias. Reduzino destaca que cada samba-enredo resultava de um longo processo criativo comunitário, que podia se estender por até um ano nas comunidades cariocas.

Essas composições transcendiam o entretenimento festivo, incorporando críticas veladas à tortura, clamores por anistia e defesas da democracia. Mesmo sob vigilância do Dops, as escolas de samba erguiam bandeiras contra o racismo estrutural e pela liberdade de expressão.

O sociólogo critica o apagamento sistemático da intelectualidade negra na narrativa cultural oficial do Brasil. Para ele, o samba-enredo, como manifestação da cultura afro-brasileira, sempre provocou debates incômodos sobre desigualdade racial e cidadania.

  • Enredos contestavam a narrativa ufanista da ditadura militar.
  • Compositores enfrentavam censura mesmo em temas aparentemente históricos.
  • Escolas como Império Serrano e Portela lideraram essa resistência cultural.
  • Vigilância policial se intensificava durante disputas de samba-enredo.

Violência racial e repressão cultural

A repressão às escolas de samba se somava à violência cotidiana contra populações negras e periféricas. Reduzino menciona o Código de Vadiagem, instrumento jurídico usado para deter músicos de samba que circulavam com instrumentos sem comprovação de emprego formal.

Historicamente marginalizado, o samba enfrentou duplo estigma durante a ditadura: cultural por sua origem negra e político por sua capacidade de mobilização popular. Bicheiros, que se tornaram financiadores das agremiações, também frequentavam círculos de poder nos gabinetes militares.

O sociólogo refuta o mito da democracia racial frequentemente romantizado em narrativas carnavalescas. Dados mostram que 80% dos jovens assassinados no Brasil são negros, além da sobrecarga de violência obstétrica sobre mulheres negras em hospitais públicos.

  • Intelectuais negros como Lélia Gonzalez foram fichados pelo Dops.
  • Clóvis Moura e outros pensadores sofreram perseguição por suas ideias.
  • O samba-enredo expunha contradições do discurso oficial de harmonia racial.
  • Debates sobre negritude ganharam força nos anos finais da ditadura.

Desconstruindo enredos ufanistas

Críticas recorrentes acusam determinados enredos dos anos 1970 de ecoarem a historiografia oficial da ditadura. Reduzino contesta essa visão simplista: dos 140 sambas-enredo analisados, apenas quatro apresentavam caráter ufanista, todos de três escolas específicas.

Para o pesquisador, rotular as escolas de samba como aliadas do regime seria uma leitura racista e reducionista. O samba-enredo frequentemente subvertia a narrativa oficial, produzida por elites acadêmicas e jornalísticas alinhadas ao poder.

Hoje atuando na Secretaria de Educação do Rio de Janeiro e no Departamento Cultural da Estação Primeira de Mangueira, Reduzino conecta sua pesquisa acadêmica à prática carnavalesca cotidiana. Sua trajetória exemplifica como a universidade pode dialogar com as periferias culturais.

  • Documentário reúne depoimentos de 55 figuras do carnaval carioca.
  • 31 especialistas acadêmicos complementam a análise histórica.
  • Produção dirigida por Luis Carlos de Alencar tem pesquisa de Reduzino.
  • Série destaca avanço dos debates sobre luta negra nos anos 1980.

Legado político do carnaval

O legado desses samba-enredo dos anos 1980 continua inspirando novas gerações de compositores e carnavalescos. Eles demonstram como a cultura popular pode funcionar como trincheira de resistência mesmo em períodos de maior repressão política.

Com o Carnaval de 2026 se aproximando, o trabalho de Reduzino adquire atualidade renovada. Lembra que os desfiles transcendem a mera celebração festiva, construindo memória coletiva e reafirmando lutas por direitos e cidadania.

O documentário Enredos da Liberdade permite compreender o papel crucial do samba-enredo na redemocratização brasileira. As escolas de samba mantêm viva essa tradição de resistência ao abordar temas sociais em seus desfiles anuais.

A trajetória analisada reforça a necessidade de valorizar vozes periféricas na construção da história nacional. Prova que a arte popular, quando consciente de suas raízes políticas, constitui ferramenta poderosa e duradoura de transformação social.

Esses samba-enredo não apenas documentaram um período histórico turbulento, mas também ajudaram a moldá-lo. Representam testemunho vivo da capacidade criativa das comunidades em transformar opressão em expressão coletiva de liberdade.

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