Descubra como os mosquitos decidem quem atacar, ignorando mitos como o tipo sanguíneo.
(Imagem: gerado por IA)
Os mosquitos não escolhem suas vítimas por acaso ou por um suposto "sangue doce". Uma pesquisa recente publicada na revista Science Advances revelou que esses insetos seguem um processo preciso, guiado por sinais químicos, visuais e térmicos emitidos pelos humanos.
Analisando mais de 20 milhões de trajetórias de voo em ambiente controlado, cientistas do Instituto de Tecnologia da Geórgia, nos Estados Unidos, mapearam como fêmeas de Aedes aegypti – transmissora da dengue, zika e chikungunya – localizam hospedeiros. O dióxido de carbono (CO2) liberado na respiração é o primeiro gatilho, detectado a até nove metros de distância.
Etapas da caçada dos mosquitos
Tudo começa com o CO2, que ativa o "modo de busca" no mosquito. Nesse estágio, o inseto reduz a velocidade e começa a sobrevoar alvos visuais, preferindo objetos escuros ou com alto contraste, como roupas pretas, vermelhas ou azul-escuras. Testes com manequins e câmeras especiais confirmaram que a combinação de estímulos é essencial para a aproximação final.
Uma vez próximo, o calor corporal e o odor da pele entram em cena. Substâncias como ácidos carboxílicos, produzidos pelo sebo e bactérias na pele, variam entre indivíduos e explicam por que algumas pessoas atraem até 100 vezes mais mosquitos do que outras. Pessoas com níveis mais altos desses compostos são "ímãs" para os insetos.
Mitos desmentidos pela ciência
O tipo sanguíneo, frequentemente culpado por picadas seletivas, não influencia a escolha. Estudos contraditórios e inconclusivos derrubam essa crença popular. Da mesma forma, o mito do "sangue O" como favorito não se sustenta em evidências robustas.
Outros fatores, como temperatura corporal elevada, maior produção de CO2 em pessoas maiores ou ativas, e até umidade da pele, também pesam. No Brasil, onde o Aedes aegypti causa epidemias anuais, entender esses mecanismos é crucial para estratégias de controle.
Impactos na saúde pública brasileira
Os mosquitos causam mais de 700 mil mortes por ano no mundo, principalmente por doenças como dengue, malária e febre amarela. No Brasil, o verão de 2026 registrou surtos recordes em estados como São Paulo e Rio de Janeiro, com milhões de casos notificados.
A pesquisa tem potencial para revolucionar repelentes e armadilhas. Ao bloquear sinais como CO2 ou ácidos carboxílicos, novos produtos poderiam reduzir a transmissão. Especialistas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) destacam que o desmatamento na Mata Atlântica está forçando mosquitos a preferirem humanos, aumentando riscos em áreas urbanas.
Anderson de Sá Nunes, professor de Imunologia da USP, explica que o sebo da pele, consumido por bactérias benéficas, gera esses odores atrativos. Mudanças na microbiota cutânea poderiam, no futuro, tornar alguém menos visado.
Dicas práticas para se proteger
Enquanto a ciência avança, medidas simples ajudam a evitar picadas:
- Use roupas claras e de manga longa, evitando cores escuras que atraem visualmente.
- Aplique repelentes com DEET, icaridina ou IR3535, reaplicando a cada 6 horas.
- Elimine água parada em casa para reduzir criadouros do Aedes.
- Mantenha ambientes ventilados; ventiladores dispersam CO2 e dificultam o voo dos insetos.
Estudos complementares, como os da Universidade Rockefeller, reforçam que hormônios como NPF impulsionam a "sede de sangue" após a postura de ovos, explicando picos de atividade.
Com o aquecimento global ampliando a área de ação dos mosquitos, investir em pesquisa é urgente. O estudo da Geórgia abre portas para inovações que podem salvar vidas e aliviar o sofrimento de milhões picados anualmente.
Compreender como os mosquitos "decidem" atacar não só desmistifica crenças populares, mas empodera a população com conhecimento acionável. Ficar atento aos sinais que emitimos pode ser a diferença entre uma noite tranquila e um verão de coceiras.