Refinaria Abreu e Lima (RNEST) atingiu recorde de produção de diesel S-10 em 2026 após modernização. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil
(Imagem: gerado por IA)
Em um movimento estratégico para fortalecer a segurança energética nacional e minimizar a volatilidade dos preços internacionais, a Petrobras anunciou que suas refinarias estão operando em um ritmo sem precedentes. Durante a apresentação do balanço trimestral da companhia, a presidente da estatal, Magda Chambriard, revelou que as unidades de processamento não apenas atingiram sua carga máxima, como ultrapassaram a marca de 100% de utilização em meses recentes.
O anúncio ocorre em um momento delicado da geopolítica global, marcado por tensões no Oriente Médio e conflitos envolvendo o Irã, fatores que historicamente pressionam o preço do barril de petróleo e, consequentemente, dos combustíveis no Brasil. Ao aumentar o refino interno, a empresa busca agregar valor ao petróleo extraído no pré-sal e reduzir a necessidade de importações de derivados, como a gasolina e o óleo diesel.
A quebra do teto técnico: como operar a 103%?
Os números apresentados pela diretoria impressionam o mercado. No primeiro trimestre de 2026, o Fator de Utilização Total (FUT) das refinarias já registrava 95%. Em março, esse índice saltou para 97,4%, o patamar mais elevado desde o final de 2014. No entanto, os dados preliminares de abril e maio indicam que a estatal superou a barreira dos 100%, chegando a operar com 103% de sua capacidade nominal.
"A Petrobras não gosta de limites. Sua meta é superar limites todos os dias", afirmou Magda Chambriard em conversa com investidores. O diretor de Processos Industriais e Produtos, William França, explicou que operar acima da capacidade de referência não é uma manobra de risco, mas sim o resultado de otimização técnica. Essas operações "extraordinárias" contam com a aprovação da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) e respeitam rigorosos protocolos de segurança e meio ambiente.
O segredo por trás da eficiência: manutenção e confiabilidade
Diferente de anos anteriores, onde paradas não programadas prejudicavam a produtividade, a Petrobras colhe agora os frutos de um cronograma intenso de manutenção realizado em 2025. O investimento em engenharia de confiabilidade permitiu que equipamentos críticos, como bombas e turbinas, operem por períodos muito mais longos antes de necessitarem de intervenção.
"Bombas que operavam com 70% de disponibilidade agora chegam a 90%. Isso nos dá a segurança necessária para aumentar a carga de processamento por mais tempo", detalhou França. Além disso, a redução no tempo das paradas programadas garante que as unidades fiquem disponíveis para o mercado justamente quando a demanda nacional oscila ou quando os preços de importação estão desfavoráveis.
Recordes em Abreu e Lima e a força de Paulínia
Um dos destaques dessa nova fase é a Refinaria Abreu e Lima (RNEST), em Pernambuco. Após passar por uma modernização profunda, a unidade elevou sua carga de 130 mil para até 150 mil barris por dia. Em abril, a planta bateu seu recorde histórico de produção de Diesel S-10, o combustível menos poluente, atingindo 385 milhões de litros em um único mês, superando uma marca que durava quase uma década.
No centro desse ecossistema está a Refinaria de Paulínia (Replan), no interior de São Paulo. Sendo a maior do país, ela sozinha processa cerca de 30% de todo o petróleo refinado no Brasil. O desempenho dessas gigantes é o que permite à Petrobras manter uma estratégia comercial mais agressiva, priorizando o refino doméstico para garantir que o consumidor brasileiro não fique totalmente à mercê das variações do dólar e do mercado de Londres.
Perspectivas e impacto no bolso do brasileiro
O aumento da produção interna de derivados é visto por analistas como um passo fundamental para a estabilidade econômica. Embora o preço nas bombas dependa de outros fatores, como impostos e margens de distribuição, a maior oferta de combustível produzido localmente cria um colchão de segurança contra choques externos. A tendência para o restante de 2026 é que a estatal mantenha o FUT em patamares elevados, consolidando o Brasil não apenas como um grande exportador de óleo bruto, mas como um player autossuficiente na produção de energia de alto valor agregado.