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Lula cria unidades de conservação, amplia áreas protegidas e define prioridades do Brasil para a COP15

23 mar 2026 - 07h44 Joice Gomes   atualizado às 07h47
Lula cria unidades de conservação, amplia áreas protegidas e define prioridades do Brasil para a COP15 Presidente anuncia prioridades para a COP15, assina decretos que ampliam áreas protegidas e reforça meta brasileira de conservação até 2030. (Imagem: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil)

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou neste domingo as prioridades que o Brasil levará para os debates da 15ª Conferência das Nações Unidas sobre Espécies Migratórias de Animais Silvestres, a COP15, e assinou três decretos voltados à criação e à ampliação de unidades de conservação no país. O pacote apresentado durante a Cúpula de Líderes, em Campo Grande, combina atuação diplomática e medidas internas de proteção ambiental, num momento em que o governo busca ampliar o peso da agenda climática e da biodiversidade na política externa brasileira.

Na prática, o anúncio une duas frentes. De um lado, o governo quer influenciar as negociações multilaterais sobre preservação de espécies migratórias. De outro, procura demonstrar compromisso concreto com a expansão de áreas protegidas, ao incorporar mais de 174 mil hectares a instrumentos de conservação ambiental por meio dos decretos assinados pelo presidente.

Prioridades do Brasil na conferência

Na fala apresentada antes da abertura formal dos debates da COP15, Lula indicou três eixos centrais para a participação brasileira. O primeiro é o diálogo com princípios já consolidados nas convenções internacionais do clima, da desertificação e da biodiversidade, com destaque para a ideia de “responsabilidades comuns, porém diferenciadas”, fórmula usada historicamente para reconhecer que os países têm deveres compartilhados, mas capacidades e responsabilidades distintas diante da crise ambiental.

O segundo eixo envolve financiamento. O governo brasileiro defende ampliar e mobilizar recursos financeiros, além de criar fundos e mecanismos multilaterais e inovadores, sobretudo voltados aos países em desenvolvimento . Essa posição reforça uma cobrança recorrente do Sul Global: a de que metas de conservação precisam ser acompanhadas de dinheiro, cooperação técnica e instrumentos permanentes de apoio, para que a proteção da biodiversidade não fique restrita ao discurso diplomático.

O terceiro ponto anunciado pelo presidente é a universalização da Declaração do Pantanal, proposta que busca ampliar o envolvimento de mais países na proteção das espécies que dependem de rotas migratórias. O tema tem peso simbólico e estratégico porque espécies migratórias atravessam fronteiras e exigem coordenação internacional, o que transforma a conservação em uma agenda de cooperação e também de governança global.

Novas áreas protegidas

Antes do discurso de encerramento da Cúpula de Líderes, Lula assinou três decretos ambientais. As medidas preveem a criação da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Córregos dos Vales do Norte de Minas, em Minas Gerais, a ampliação do Parque Nacional do Pantanal Mato-Grossense, em Mato Grosso, e a ampliação da Estação Ecológica de Taiamã, também em Mato Grosso.

Somadas, as três decisões representam mais de 174 mil hectares que passam a ser alcançados por mecanismos formais de proteção. O dado é relevante porque a ampliação de unidades de conservação costuma ser um dos principais indicadores usados para medir o avanço de políticas públicas de preservação, especialmente em biomas pressionados por desmatamento, ocupação irregular, incêndios e expansão de atividades econômicas.

A criação de uma reserva de desenvolvimento sustentável também chama atenção por combinar conservação ambiental e uso controlado do território, permitindo atividades compatíveis com a proteção dos ecossistemas e com o modo de vida das populações locais. Já a ampliação de parque nacional e de estação ecológica fortalece instrumentos mais rígidos de preservação, com foco em integridade ambiental, pesquisa científica e proteção de habitats sensíveis.

Discurso político e ambiental

No pronunciamento, Lula afirmou que a América Latina precisa continuar atuando de forma conjunta em ações de conservação e proteção da biodiversidade, por considerar que não haverá prosperidade duradoura sem essa agenda. A declaração amplia o debate para além da preservação de espécies e insere a biodiversidade no centro de uma estratégia de desenvolvimento, segurança hídrica, estabilidade climática e integração regional.

O presidente também associou a discussão ambiental ao cenário geopolítico internacional. Ao mencionar um contexto de tensões, ações unilaterais, atentados à soberania e execuções sumárias, defendeu o multilateralismo como caminho para superar desafios globais e afirmou que a COP15 deve servir como espaço de avanços coletivos em defesa da natureza e da humanidade.

Esse trecho do discurso ajuda a explicar o enquadramento político adotado pelo governo brasileiro. A mensagem é a de que proteger a biodiversidade não é apenas uma obrigação ambiental, mas parte de uma resposta mais ampla à fragmentação internacional, à disputa por recursos e à necessidade de fortalecer instituições multilaterais.

Meta para 2030 e efeitos práticos

Ao comentar os decretos, Lula reafirmou o objetivo de alcançar até 2030 a proteção de 30% da área oceânica, em linha com o que prevê a Convenção sobre Diversidade Biológica. Embora o anúncio deste domingo trate também de áreas terrestres e zonas úmidas, a referência à meta de 2030 mostra que o governo tenta alinhar medidas pontuais a compromissos mais amplos assumidos no plano internacional.

Na prática, decisões como a criação e a ampliação de unidades de conservação podem produzir efeitos que vão além da delimitação territorial. Entre eles estão a melhora das condições para fiscalização, a preservação de corredores ecológicos, a proteção de áreas usadas por espécies migratórias e o fortalecimento de políticas voltadas a pesquisa, manejo e monitoramento ambiental.

No caso do Pantanal, onde duas das medidas anunciadas se concentram, o tema ganha ainda mais importância por envolver uma das maiores áreas úmidas do planeta e um ecossistema altamente sensível a secas extremas, queimadas e alterações no uso do solo. A escolha de Campo Grande como palco da Cúpula de Líderes e da COP15 reforça esse simbolismo e projeta o bioma para o centro do debate internacional sobre conservação.

  • O Brasil levará à COP15 três prioridades: defesa de princípios multilaterais, ampliação do financiamento para países em desenvolvimento e universalização da Declaração do Pantanal.
  • Foram assinados decretos para criar a Reserva de Desenvolvimento Sustentável Córregos dos Vales do Norte de Minas e ampliar o Parque Nacional do Pantanal Mato-Grossense e a Estação Ecológica de Taiamã.
  • As medidas somam mais de 174 mil hectares alcançados por proteção ambiental formal.
  • O governo também reafirmou a meta de garantir até 2030 a proteção de 30% da área oceânica brasileira.

Com esse movimento, o governo tenta chegar à COP15 com uma combinação de discurso diplomático, defesa de financiamento internacional e medidas domésticas de conservação já formalizadas. O resultado político imediato é a sinalização de que o Brasil pretende sustentar protagonismo nas negociações ambientais com ações concretas, especialmente em um tema que depende de cooperação entre países e de proteção contínua dos ecossistemas.

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