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Após 5 anos, julgamento do caso Henry Borel começa nesta segunda-feira no Rio

23 mar 2026 - 08h13 Joice Gomes   atualizado às 08h15
Após 5 anos, julgamento do caso Henry Borel começa nesta segunda-feira no Rio Começa hoje o julgamento de Monique Medeiros e Jairo Souza Santos Júnior pela morte de Henry Borel. (Imagem: Tomaz Silva/Agência Brasil)

Nesta segunda-feira (23), às 9h, o 2º Tribunal do Júri do Rio de Janeiro inicia o julgamento de Monique Medeiros e Jairo Souza Santos Júnior, conhecido como Dr. Jairinho, pela morte do menino Henry Borel Medeiros, de 4 anos. O crime, ocorrido em 8 de março de 2021, gerou comoção nacional ao revelar rotinas de agressões contra a criança no apartamento do casal, na Barra da Tijuca.

Henry foi levado ao Hospital Barra D'Or com parada cardiorrespiratória, mas o laudo do Instituto Médico-Legal (IML) apontou 23 lesões por ação violenta, incluindo laceração hepática e hemorragia interna, descartando qualquer hipótese de acidente doméstico. As investigações da Polícia Civil concluíram que o padrasto praticava torturas sistemáticas e que a mãe tinha pleno conhecimento das violências.

Crime que abalou o país

O caso Henry Borel explodiu em repercussão em 2021, quando depoimentos de testemunhas, incluindo funcionários da escola do menino, revelaram padrões de maus-tratos. Henry apresentava sinais evidentes de espancamentos, como hematomas e fraturas antigas, e vomitava ao avistar o padrasto. O Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) denunciou Jairinho por homicídio qualificado, tortura e outros crimes, enquanto Monique responde por homicídio por omissão imprópria, por não proteger o filho.

Prisão do casal veio em abril de 2021, após quebras de sigilo telefônico e imagens de câmeras que contradiziam a versão inicial de acidente. Laudos complementares indicaram lesões faciais provocadas por unhas pós-morte e reforçaram a brutalidade das agressões, com ação contundente como causa direta da morte. O processo acumulou recursos da defesa, adiando o júri por quase cinco anos.

Perfil dos réus e perda do mandato

Jairo Souza Santos Júnior, de família tradicional de Bangu, era médico e vereador no Rio, eleito com forte votação em 2020. Conhecido como Dr. Jairinho, ele teve o mandato cassado pela Câmara Municipal em junho de 2021, por 49 a 1, em votação que considerou quebra de decoro. O Tribunal de Justiça negou recurso em 2024, mantendo a decisão com base na independência das esferas penal, civil e administrativa.

Monique Medeiros da Silva, mãe de Henry, era empresária do ramo de franquias e chegou a ser afastada da prefeitura por decreto. Atualmente, ambos cumprem prisão preventiva no Complexo de Gericinó, em Bangu. A defesa sustenta inocência, alegando erros em laudos periciais e versão de acidente, mas a promotoria busca condenações de pelo menos 35 anos cada.

Voz do pai: luta por justiça

Leniel Borel, pai de Henry e atual vereador pelo PP no Rio, atua como assistente de acusação. Em declarações recentes, ele descreve a dor de lutar por justiça por mais tempo que conviveu com o filho. "Tenho mais tempo lutado por Justiça pelo meu filho do que o tempo que tive com ele em vida", afirmou, relembrando a última visita, quando Henry chorou ao partir.

Leniel traça perfil sombrio dos réus: "Jairo é um sádico, psicopata consciente, com nível superior, que tinha prazer em agredir crianças. Ele só foi morar com Monique por causa do Henry". Sobre a mãe, critica: "Uma mãe que permitiu que o filho fosse violentado para satisfazer os prazeres do Jairo". Ele relata tentativas de intimidação recentes e clama vigilância para evitar soltura dos acusados, que teriam malas prontas para fugir em 2021.

Impactos e legado legislativo

O julgamento do caso Henry Borel deve durar pelo menos 10 dias, com 27 testemunhas, debates e deliberação de 7 jurados. A sessão pode se estender com perícias e argumentos sobre coação processual e fraude. Manifestações de entidades de defesa infantil ocorrem desde as 8h na Praça 15, reforçando a cobrança por punição exemplar.

O crime inspirou a Lei Henry Borel (14.344/2022), que qualifica homicídios contra menores de 14 anos como hediondos, amplia punições e cria medidas protetivas contra violência doméstica. A norma alterou o Código Penal, tornando condutas como as do caso mais graves e visíveis no sistema jurídico brasileiro.

Para a sociedade, o caso expõe falhas na rede de proteção infantil e reforça debates sobre responsabilidade parental. Leniel Borel resume: "Não é um processo qualquer: é o julgamento de um crime brutal contra uma criança de 4 anos que confiava nos adultos que deveriam protegê-la". A decisão do júri pode trazer alívio à família e servir de marco no combate à violência contra crianças no Brasil.

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