Jovens se reúnem na Esplanada dos Ministérios para confeccionar tapetes de Corpus Christi feitos à mão.
(Imagem: gerado por IA)
Em um mundo cada vez mais mediado por algoritmos e interações virtuais, um movimento silencioso, mas vibrante, tomou conta da Esplanada dos Ministérios neste feriado de Corpus Christi. Grupos de jovens brasilienses decidiram fazer um tipo diferente de "jejum": o das telas. No lugar do scroll infinito das redes sociais, entraram a serragem, o sal colorido e o trabalho braçal que dá vida aos tradicionais tapetes religiosos.
A cena, que se repete anualmente, ganhou um novo contorno em 2024. Para muitos dos participantes, estar ali não é apenas uma obrigação religiosa, mas uma estratégia de preservação da saúde mental e de busca por conexões humanas que o ambiente digital não consegue suprir. Vitória Nunes, estudante de 18 anos e coordenadora de um grupo jovem na comunidade Lúcio Costa, resume o sentimento da geração: "Os encontros ficam mais verdadeiros do que na internet", afirma, enquanto moldava o desenho de um cálice com areia e tinta.
A fé como rede de apoio em tempos de crise
A participação desses jovens vai além da estética dos tapetes. Para a comunidade de Vitória, localizada em uma região periférica do Distrito Federal que recentemente enfrentou processos tensos de reintegração de posse, a igreja e essas atividades coletivas tornaram-se um porto seguro. Ela relata que o apoio da família e a convivência no grupo jovem têm sido fundamentais para reduzir sentimentos de solidão e sintomas de depressão entre os adolescentes.
O trabalho é árduo e começou cedo. Desde o raiar do dia, grupos vindos de diversas regiões administrativas se uniram para preencher um corredor de 125 metros de comprimento. Ali, a inteligência artificial não tem espaço. Os desenhos são feitos à mão, a sensibilidade é tátil e o ritmo é ditado pela música, pela dança e pelas conversas olho no olho que acontecem nas rodas de trabalho.
Inclusão e novos propósitos
O impacto social dessa mobilização também abre portas para a inclusão. Márcio da Cruz, de 36 anos, encontrou nos tapetes de Corpus Christi uma forma de se reconectar com a sociedade. Surdo e atualmente em busca de emprego, ele conta com o apoio da Pastoral dos Surdos para transformar o isolamento em protagonismo. Sua mãe, Vânia Lúcia, observa com orgulho o filho caçula trabalhar: "Muitos jovens surdos não têm oportunidade no mercado. Quando eles se unem assim, ficam mais felizes".
Essa necessidade de "falar a linguagem dos jovens" é uma preocupação constante dos líderes comunitários. Mariana Abrantes, diretora do Movimento Escalada, destaca que atrair a juventude para longe dos dispositivos móveis exige criatividade, mas os resultados são compensadores. Ao cultivar amizades presenciais que extrapolam o ambiente da igreja, esses jovens criam uma rede de proteção contra a desinformação e o isolamento social.
Um alerta global para o comportamento digital
A escolha desses jovens pelo trabalho manual e presencial ressoa com preocupações globais recentes. O Vaticano tem se posicionado de forma enfática sobre os riscos da inteligência artificial e a necessidade de regulamentação tecnológica para proteger o tecido social e evitar a propagação de notícias falsas. Ao escolherem o contato direto com a matéria-prima e com o próximo, esses jovens do DF acabam colocando em prática, de forma intuitiva, um manifesto por uma vida mais analógica e conectada com o real.
O desdobramento desse movimento é claro: a tradição dos tapetes de Corpus Christi, em Brasília, deixou de ser apenas um marco do calendário católico para se tornar um espaço de resistência comportamental, onde a juventude redescobre o valor da doação e do esforço coletivo.