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Economia

Contas públicas têm superávit de R$ 103,7 bilhões em janeiro; estatais pressionam e dívida bruta fica em 78,7% do PIB

28 fev 2026 - 08h00 Joice Gomes
Contas públicas têm superávit de R$ 103,7 bilhões em janeiro; estatais pressionam e dívida bruta fica em 78,7% do PIB As contas públicas registraram superávit de R$ 103,7 bilhões em janeiro. (Imagem: Marcello Casal jr/Agência Brasil)

A dinâmica das contas públicas começou 2026 com um número expressivo e, ao mesmo tempo, cheio de nuances que importam para o cotidiano e para as expectativas do mercado: o setor público consolidado registrou superávit de R$ 103,7 bilhões em janeiro, segundo estatísticas fiscais divulgadas pelo Banco Central. O dado reúne União, estados, municípios e empresas estatais e se refere ao resultado primário, que mede a diferença entre receitas e despesas sem considerar o pagamento de juros da dívida. Em linguagem direta, é o “saldo do mês” antes do custo financeiro do endividamento.

Apesar do valor elevado, o próprio comparativo mostra que o resultado veio um pouco abaixo do registrado no mesmo mês do ano anterior: em janeiro de 2025, o superávit primário foi de R$ 104,1 bilhões. A diferença é pequena, mas ajuda a entender por que a leitura do indicador não pode ficar restrita ao resultado de um único mês. O Banco Central também chama atenção para o desempenho do acumulado em 12 meses, que ainda está negativo.

No recorte de um ano, o setor público consolidado acumulou déficit primário de R$ 55,4 bilhões, equivalente a 0,43% do Produto Interno Bruto (PIB). Esse número é relevante porque mostra que o setor público, apesar de ter iniciado o ano no azul, ainda carrega um saldo recente desfavorável quando se observa um período mais longo. Além disso, o Banco Central registrou que 2025 terminou com déficit primário de R$ 55 bilhões, também equivalente a 0,43% do PIB, o que ajuda a contextualizar o ponto de partida para 2026.

O que aconteceu nas contas públicas em janeiro

O destaque do mês foi o desempenho do Governo Central, que fechou janeiro com superávit primário de R$ 87,3 bilhões. Na mesma linha, estados e municípios, agrupados como governos regionais nas estatísticas do Banco Central, somaram resultado positivo de R$ 21,3 bilhões. Esses dois blocos foram os principais responsáveis por levar o setor público consolidado ao superávit.

Em sentido oposto, as empresas estatais federais, estaduais e municipais (com exclusão de Petrobras e Eletrobras, conforme a metodologia do Banco Central) apresentaram déficit de R$ 4,9 bilhões em janeiro. Ou seja, enquanto governo central e entes regionais ajudaram a elevar o saldo, o desempenho das estatais atuou como fator de redução do resultado consolidado no mês.

  • Resultado primário do setor público consolidado: superávit de R$ 103,7 bilhões em janeiro de 2026.
  • Governo Central: superávit de R$ 87,3 bilhões; governos regionais: superávit de R$ 21,3 bilhões; estatais: déficit de R$ 4,9 bilhões.
  • Acumulado em 12 meses: déficit primário de R$ 55,4 bilhões (0,43% do PIB).

Por que isso importa na prática

O resultado primário é acompanhado de perto porque está ligado à trajetória da dívida pública: superávits ajudam a conter o crescimento do endividamento, enquanto déficits tendem a exigir mais financiamento. No entanto, o peso dos juros altera significativamente a fotografia fiscal. Em janeiro, os juros nominais apropriados somaram R$ 63,6 bilhões, influenciados pela elevação da taxa básica de juros e pelo tamanho do endividamento líquido, o que reduz o ganho do superávit primário quando se passa para o resultado nominal.

Por isso, além do primário, o Banco Central divulga o resultado nominal, que soma o resultado primário aos juros. Em janeiro, o setor público consolidado teve superávit nominal de R$ 40,1 bilhões, abaixo do observado em janeiro de 2025 (R$ 63,7 bilhões). No acumulado em 12 meses, porém, o resultado nominal ficou bastante pressionado: déficit de R$ 1,086 trilhão, equivalente a 8,49% do PIB, indicador que costuma entrar no radar de investidores e avaliações de risco soberano.

  • Juros nominais em janeiro: R$ 63,6 bilhões.
  • Resultado nominal em janeiro: superávit de R$ 40,1 bilhões (após considerar juros).
  • Resultado nominal em 12 meses: déficit de R$ 1,086 trilhão (8,49% do PIB).

Impactos na dívida e o que pode vir a seguir

O relatório do Banco Central também traz os números mais observados quando o assunto é endividamento: a dívida líquida do setor público chegou a R$ 8,3 trilhões em janeiro, o equivalente a 65,0% do PIB, com queda de 0,3 ponto percentual no mês. Segundo o Banco Central, essa redução refletiu principalmente o superávit primário, a variação do PIB nominal e ajustes na dívida externa líquida, com compensações vindas dos juros nominais e do efeito cambial. O texto cita, ainda, uma apreciação cambial de 4,9% em janeiro como parte do conjunto de fatores.

Já a dívida bruta do governo geral atingiu R$ 10,1 trilhões, o equivalente a 78,7% do PIB, mantendo o mesmo percentual do mês anterior. Em termos práticos, esse indicador é usado em comparações internacionais e também ajuda a balizar a percepção de sustentabilidade fiscal ao longo do tempo. Para os próximos meses, a combinação entre nível de juros, ritmo de atividade, comportamento das receitas e desempenho das estatais tende a definir se o resultado do começo do ano se sustenta e em que intensidade a dívida pode oscilar.

  • Dívida líquida: R$ 8,3 trilhões (65,0% do PIB) em janeiro, com redução de 0,3 ponto percentual no mês.
  • Dívida bruta do governo geral: R$ 10,1 trilhões (78,7% do PIB) em janeiro, estável em proporção do PIB.
  • Fatores citados para a variação mensal: superávit primário, PIB nominal, juros nominais e efeito cambial.

Ao olhar para frente, o dado de janeiro funciona como um termômetro inicial, mas não como uma sentença sobre o ano fiscal. A leitura que tende a ganhar força é a que combina o impulso do superávit de R$ 103,7 bilhões no mês com o fato de que o acumulado em 12 meses ainda está deficitário, além do peso dos juros no resultado nominal. É nessa interseção entre fluxo de receitas e despesas, custo da dívida e desempenho das estatais que se define a velocidade com que o setor público consegue melhorar, ou não, a percepção de equilíbrio das contas.

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