Brasil lidera ranking mundial de assassinatos de pessoas trans pelo 18º ano consecutivo.
(Imagem: Marcello Camargo/Agência Brasil)
O Brasil se mantém como o país que mais mata pessoas transexuais e travestis no mundo pelo 18º ano consecutivo, segundo dados da nona edição do dossiê da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). Em 2025, foram registrados 80 assassinatos de pessoas trans no país, uma redução de 34,4% em comparação com as 122 mortes contabilizadas em 2024. Ainda assim, o Brasil permanece na liderança do ranking mundial desde 2008, respondendo por aproximadamente 30% dos casos globais de homicídios dessa população.
Quem são as vítimas
O dossiê da Antra revela que 77 das 80 mortes em 2025 foram contra travestis e mulheres trans, enquanto três casos envolveram homens trans e pessoas transmasculinas. Cerca de 70% das vítimas eram pessoas negras, e a maioria era jovem, com idade entre 18 e 35 anos. O levantamento histórico entre 2017 e 2025 aponta São Paulo como o estado mais letal, com 155 registros, seguido por Minas Gerais e Ceará, que lideraram o número de assassinatos em 2025, com oito casos cada.
A Região Nordeste concentrou a maior parte das mortes em 2025, somando 38 registros, seguida por Sudeste (17), Centro-Oeste (12), Norte (7) e Sul (6). Um dado preocupante aponta que 67,5% dos assassinatos ocorreram em cidades do interior, contra apenas 32,5% nas capitais, o que dificulta ainda mais a catalogação das mortes e indica uma interiorização da violência em locais com acesso mais restrito a redes de apoio.
Contexto global e aumento contra ativistas
O relatório Trans Murder Monitoring 2025, divulgado pela European Transgender Network (TGEU), mostra que entre 1º de outubro de 2024 e 30 de setembro de 2025 foram reportados 281 assassinatos de pessoas trans e de gênero diverso no mundo. Desse total, cerca de 68% ocorreram na América Latina e Caribe, reforçando a posição de destaque negativo do Brasil no cenário internacional. O documento também destaca uma mudança alarmante no perfil das vítimas: pela primeira vez, uma parcela significativa dos homicídios envolveu ativistas ou líderes de movimentos trans, representando 14% dos casos, contra 9% em 2024 e 6% em 2023.
Cautela com a queda nos números
A presidente da Antra, Bruna Benevides, ressalta que a redução no número de assassinatos não deve ser interpretada como uma melhora no cenário real de segurança para a população trans. O medo de represálias, a falta de acesso à Justiça, a violência policial e a desconfiança histórica das pessoas trans em relação ao Estado contribuem para o apagamento estatístico. Muitas mortes são registradas com nomes civis incorretos, gêneros errados ou nem sequer são identificadas como crimes de ódio, o que impede sua inclusão nos levantamentos oficiais.
Além disso, o dossiê da Antra aponta aumento nas tentativas de homicídio, indicando que a redução no número de assassinatos não representa, necessariamente, diminuição da violência. Os dados foram coletados a partir do monitoramento diário de notícias, denúncias diretas feitas às organizações trans e registros públicos, o que evidencia a invisibilização dessas mortes pelo Estado.
Natureza estrutural da violência
Os especialistas alertam que os números revelam uma população exposta à violência extrema desde muito cedo, atravessada por exclusão social, racismo, abandono institucional e sofrimento psicológico contínuo. A permanência do Brasil no topo desse ranking expõe uma estrutura social, política e institucional que tolera, invisibiliza e até mesmo legitima a matança de travestis e mulheres trans, especialmente negras ou periféricas.
Apesar da queda nos números absolutos, o ranking mundial de assassinatos contra pessoas trans continua a ser liderado pelo Brasil, o que exige ações concretas de políticas públicas voltadas para a proteção dessa população vulnerável. Organizações co