Projeto de tarifa zero em Santos aguarda votação na Câmara Municipal para ser implementado.
(Imagem: gerado por IA)
Enquanto cidades vizinhas e grandes metrópoles brasileiras avançam na discussão sobre a gratuidade no transporte público, em Santos, o relógio parece ter parado. O projeto de lei que abre caminho para a implementação da tarifa zero nos ônibus municipais completa, nesta semana, sete meses de tramitação na Câmara de Vereadores, sem que um desfecho esteja no horizonte imediato dos passageiros.
Enviada pelo prefeito Rogério Santos (Republicanos) ainda no primeiro semestre, a proposta não é apenas um aceno político, mas uma mudança estrutural no modelo de financiamento da mobilidade urbana. O texto prevê a criação e a ampliação de subsídios diretos ao sistema de transporte coletivo, permitindo que a prefeitura assuma integralmente os custos que hoje são divididos com o cidadão na catraca.
O labirinto burocrático no Legislativo
Desde que chegou à Casa de Leis, a matéria percorre o lento rito das comissões permanentes. Atualmente, o projeto aguarda análises técnicas e jurídicas fundamentais, como as das comissões de Justiça e Redação, e de Finanças e Orçamento. O ponto central da discussão não é apenas o mérito da gratuidade — que goza de relativa popularidade —, mas a sustentabilidade financeira do modelo a longo prazo.
Vereadores da oposição e da base aliada têm questionado de onde virão os recursos extras para cobrir o déficit que a retirada da tarifa causará nos cofres públicos. Estimativas preliminares indicam que o custo para manter a frota operando sem a cobrança de passagens exige uma engenharia financeira complexa, que pode envolver desde a arrecadação de multas de trânsito até novos impostos sobre o estacionamento rotativo ou publicidade nos próprios veículos.
O que muda na vida do morador de Santos?
Para o trabalhador santista, a aprovação do projeto significa um alívio direto no orçamento familiar. Em tempos de inflação acumulada e pressão nos custos de vida, o gasto com transporte é uma das fatias mais pesadas da renda mensal, especialmente para quem reside em bairros mais afastados e depende de múltiplas integrações. Além do aspecto financeiro, a tarifa zero é vista por especialistas como uma ferramenta de justiça social e fomento econômico.
Com o transporte gratuito, a circulação de pessoas tende a aumentar, beneficiando diretamente o comércio de rua e os centros de compras da cidade. "Se o cidadão não gasta 10 reais por dia em passagens, esse dinheiro acaba circulando na padaria do bairro ou nas lojas do Gonzaga", explicam economistas locais. A medida também tem potencial para reduzir o número de veículos individuais nas ruas, aliviando o trânsito crônico nas avenidas da orla e da zona noroeste.
A tendência nacional e a pressão sobre Santos
O movimento em Santos não ocorre de forma isolada. O Brasil já conta com mais de 100 cidades operando com tarifa zero, incluindo municípios de médio porte e regiões metropolitanas. São Caetano do Sul, no ABC Paulista, tornou-se um dos principais cases de sucesso recentes, registrando um aumento expressivo no número de usuários e uma melhora nos índices de mobilidade urbana após abolir a cobrança.
Em Santos, a pressão popular deve aumentar conforme as eleições municipais ou os novos contratos de concessão se aproximam. O governo municipal defende que a gratuidade é o único caminho para modernizar o sistema e atrair o passageiro de volta ao ônibus, evitando o colapso do modelo atual que, com tarifas elevadas, afasta o usuário e encarece o subsídio por passageiro transportado.
O desfecho do projeto agora depende da celeridade do presidente da Câmara em colocar a matéria em votação plenária após o aval das comissões. Até lá, o passageiro santista continua pagando uma das tarifas mais caras da Baixada Santista, enquanto observa o futuro do transporte público aguardar em uma gaveta legislativa.