A incidência de câncer de pele no Brasil saltou de 4 mil para mais de 72 mil em 10 anos.
(Imagem: Agência Brasil/Fernando Frazão)
O número de casos de câncer de pele no Brasil explodiu em uma década, saltando de pouco mais de 4 mil diagnósticos em 2014 para mais de 72 mil em 2024. O avanço acende um alerta entre especialistas, que apontam uma combinação de fatores para explicar o cenário, como maior exposição ao sol, envelhecimento da população, predominância de pele clara em diversas regiões e melhora na capacidade de registrar e notificar os casos.
Embora parte desse crescimento esteja relacionada ao aperfeiçoamento dos sistemas de vigilância, a curva ascendente do câncer de pele indica que a prevenção ainda está muito aquém do necessário. A doença, que muitas vezes começa com pequenas manchas ou lesões na pele, pode evoluir para quadros graves quando não é identificada e tratada precocemente, o que reforça a importância de campanhas educativas e de acesso facilitado a dermatologistas.
Distribuição regional da doença
Os dados revelam um padrão regional bem definido na incidência de câncer de pele. Estados das regiões Sul e Sudeste concentram as maiores taxas, com Espírito Santo e Santa Catarina despontando entre os líderes em número de casos por 100 mil habitantes. Esse quadro está ligado a fatores como a alta exposição a radiação ultravioleta, o perfil de pele mais clara de boa parte da população e o maior envelhecimento em algumas áreas.
Em contraste, Norte e Nordeste registram incidências menores, mas com tendência de crescimento e sinais de mudança no padrão histórico. Estados como Rondônia e Ceará, por exemplo, vêm mostrando elevação significativa nos indicadores de câncer de pele, o que pode refletir tanto o aumento real de casos quanto a melhoria dos sistemas de diagnóstico e notificação. Em regiões com histórico de subregistro, a expansão da vigilância epidemiológica faz com que mais casos venham à tona, ainda que persistam dificuldades em áreas rurais e de difícil acesso.
Acesso desigual a consultas e diagnóstico
Se por um lado os números revelam a dimensão do problema, por outro escancaram uma desigualdade preocupante no acesso ao diagnóstico do câncer de pele. Usuários do Sistema Único de Saúde enfrentam muito mais obstáculos para conseguir uma consulta com dermatologista em comparação com quem utiliza planos privados. Enquanto a rede suplementar mantém um volume de atendimentos bem superior, a rede pública ainda luta para repor o ritmo de consultas, sobretudo após o impacto da pandemia de covid-19.
Nos últimos anos, o SUS conseguiu recuperar parte do terreno perdido, voltando a registrar quase 4 milhões de consultas dermatológicas anuais, patamar próximo ao período pré-pandemia. Porém, esse número ainda fica muito aquém da demanda reprimida e contrasta com a realidade da saúde suplementar, que ultrapassa a marca de 10 milhões de consultas por ano. Na prática, isso significa que quem depende exclusivamente do atendimento público tem menos chance de identificar precocemente sinais de câncer de pele, o que aumenta o risco de descobrir a doença já em estágios mais avançados.
- Consultas no SUS ainda ficam bem abaixo da capacidade da rede privada, revelando forte desigualdade no acesso a especialistas.
- A demora para avaliação com dermatologista reduz as chances de diagnóstico precoce do câncer de pele.
- Campanhas de rastreamento e mutirões podem ajudar a aliviar a fila, mas não substituem a estrutura permanente de atendimento.
Tratamento concentrado e atrasos na terapia
A desigualdade não aparece apenas na porta de entrada do sistema, mas também na oferta de tratamento para câncer de pele. Centros de alta complexidade em oncologia, responsáveis por procedimentos mais avançados, estão concentrados principalmente em grandes estados como São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Já diversas unidades da federação contam com poucas estruturas especializadas, obrigando pacientes a enfrentar longos deslocamentos para conseguir atendimento adequado.
Essa concentração de serviços impacta diretamente o tempo entre o diagnóstico e o início da terapêutica. Em regiões com rede mais estruturada, como Sul e Sudeste, muitos pacientes conseguem começar o tratamento em até 30 dias, o que é considerado um intervalo mais seguro. Em partes do Norte e do Nordeste, porém, a espera pode ultrapassar 60 dias com frequência, o que favorece o agravamento do quadro, o aumento da complexidade dos procedimentos e o risco de sequelas ou morte associadas ao câncer de pele.
Prevenção, protetor solar e políticas públicas
Diante desse cenário, especialistas reforçam que o avanço do câncer de pele não é apenas um problema médico, mas também de política pública. Medidas de prevenção, como campanhas permanentes de orientação sobre exposição ao sol, uso regular de protetor solar e identificação de sinais suspeitos na pele, são consideradas estratégicas para frear o crescimento dos casos. Ao mesmo tempo, é necessário garantir que essas informações cheguem às escolas, unidades básicas de saúde e locais de trabalho, especialmente em setores como agricultura e construção civil, onde a exposição ao sol é intensa.
Uma das propostas em debate é incluir o protetor solar entre os itens considerados essenciais na política tributária, o que poderia reduzir o preço final ao consumidor e ampliar o acesso da população, principalmente das famílias de baixa renda. Paralelamente, entidades da área da saúde defendem o fortalecimento da Política Nacional de Prevenção e Controle do Câncer no SUS, com foco específico no câncer de pele, ampliando a estrutura de atendimento, encurtando filas e estimulando o diagnóstico precoce em todo o território nacional.