Fenômeno conhecido como maré marrom é causado por algas e sedimentos naturais na orla de Praia Grande.
(Imagem: gerado por IA)
Quem visitou as praias de Praia Grande nos últimos dias deparou-se com um cenário atípico e, para muitos, preocupante. Em vez do tradicional azul ou verde, o mar apresentou uma coloração marrom intensa, popularmente descrita como "cor de chocolate", acompanhada de uma densa camada de espuma em diversos trechos da areia. O fenômeno, que rapidamente gerou discussões e teorias sobre possíveis vazamentos de esgoto nas redes sociais, tem, na verdade, uma explicação científica ligada ao ecossistema marinho.
Causas naturais: Algas e Sedimentos
Diferente do que o senso comum sugere, a coloração escura não indica necessariamente poluição por detritos humanos. De acordo com biólogos e especialistas em monitoramento oceânico, esse visual é causado principalmente pela floração de microalgas, conhecidas como diatomáceas. Esses microrganismos se multiplicam rapidamente quando há uma combinação específica de fatores: aumento da temperatura da água, incidência de luz solar e abundância de nutrientes.
Além das algas, o período de chuvas intensas que atingiu a Baixada Santista recentemente contribui para o transporte de sedimentos terrestres e matéria orgânica através dos canais e rios que desaguam no oceano. Esse material em suspensão altera a transparência da água, conferindo-lhe o aspecto turvo e amarronzado. A espuma, que costuma assustar os banhistas, é resultado da agitação das ondas sobre essa matéria orgânica acumulada, funcionando de forma semelhante a um detergente natural.
O mar está impróprio para banho?
A principal dúvida de moradores e turistas é sobre a segurança de entrar na água durante esses episódios. Embora a aparência seja desagradável, a floração de algas comum na região geralmente não é tóxica. No entanto, o aspecto turvo pode dificultar a visualização de perigos subaquáticos, como buracos ou correntes de retorno, e o excesso de matéria orgânica pode causar desconfortos leves em pessoas com peles mais sensíveis.
A orientação oficial permanece a mesma: o banhista deve sempre consultar os boletins de balneabilidade da Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo). O órgão realiza coletas semanais e é o único capaz de atestar se a presença de coliformes fecais está dentro dos limites aceitáveis para o contato humano. É importante ressaltar que a cor da água não é o único indicador de qualidade; muitas vezes, um mar cristalino pode estar contaminado, enquanto um mar marrom pode estar biologicamente saudável, apenas com alta densidade de sedimentos.
Impacto do clima e correntes marítimas
Fenômenos como este são cíclicos e tendem a desaparecer conforme as condições meteorológicas mudam. A chegada de uma frente fria ou a mudança na direção dos ventos, especialmente o vento sul, costuma dispersar as manchas de algas e sedimentos para o alto-mar, permitindo que a água recupere sua tonalidade habitual em poucos dias. A dinâmica das marés também desempenha um papel crucial na renovação da água próxima à costa.
O monitoramento contínuo das autoridades ambientais reforça que, apesar do susto visual, Praia Grande e outras cidades da Baixada enfrentam esse processo de forma recorrente, especialmente durante a transição das estações. A conscientização da população sobre as causas naturais ajuda a evitar pânico desnecessário, permitindo que o foco das cobranças públicas se mantenha na manutenção real das redes de saneamento básico e no combate ao descarte irregular de lixo, que estes sim, representam riscos permanentes ao meio ambiente.
Para os próximos dias, a tendência é que a visibilidade da água melhore gradualmente, mas a recomendação é que os frequentadores mantenham a atenção redobrada e priorizem trechos da orla que possuam a bandeira verde de balneabilidade atualizada.