Novo aplicativo A.Dot busca conectar famílias a crianças que estão fora do perfil mais procurado.
(Imagem: gerado por IA)
O processo de adoção no Brasil acaba de ganhar um aliado tecnológico que promete transformar a vida de milhares de crianças e adolescentes. O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) lançou oficialmente nesta segunda-feira (25) o aplicativo A.Dot. O objetivo é claro: dar rosto e voz àqueles que o sistema muitas vezes acaba deixando em segundo plano, os chamados perfis de busca ativa.
Diferente do fluxo tradicional de adoção, onde os pretendentes aguardam por perfis que se encaixem em suas preferências iniciais, o A.Dot inverte essa lógica. Ele foca especificamente em crianças mais velhas, adolescentes, grupos de irmãos e menores com deficiência ou necessidades específicas de saúde. São esses os jovens que compõem a maior parte da fila de espera e que, historicamente, enfrentam maiores dificuldades para encontrar um lar definitivo.
Tecnologia a serviço do afeto
Originalmente desenvolvido no âmbito do Tribunal de Justiça do Paraná, o aplicativo agora ganha escala nacional sob a chancela do CNJ. A plataforma funciona de maneira integrada ao Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA) e permite que os pretendentes habilitados tenham uma visão muito mais humanizada de quem são esses jovens. Através de fotos e vídeos curtos, o aplicativo permite que o adotante conheça a personalidade, os sonhos e os sorrisos de quem está do outro lado da tela.
O acesso é rigorosamente controlado. Para utilizar a ferramenta, é necessário realizar o login através do portal Gov.br. Apenas pessoas que já passaram pelo processo de habilitação e estão devidamente autorizadas pela Justiça podem visualizar os conteúdos audiovisuais. Segundo o ministro Edson Fachin, presidente do STF e do CNJ, essa tecnologia permite que as decisões sejam tomadas de forma mais consciente e responsável, fortalecendo a proteção integral da infância.
O desafio da adoção tardia e de irmãos
Os números apresentados pelo CNJ reforçam a necessidade de ferramentas como o A.Dot. Atualmente, cerca de 1.800 crianças e adolescentes estão aptos para a busca ativa no Brasil. O perfil é desafiador: mais de 90% deles possuem mais de oito anos de idade e cerca de 60% pertencem a grupos de irmãos. No sistema tradicional, a separação de irmãos é um dos maiores temores, mas o aplicativo tem mostrado um caminho diferente. De acordo com o juiz Hugo Zaher, gestor do SNA, 65% das adoções realizadas via busca ativa conseguem manter os irmãos unidos.
A visibilidade oferecida pela plataforma busca romper a 'invisibilidade' que atinge esses jovens à medida que eles crescem nos abrigos. A ideia é que, ao ver um vídeo de um adolescente falando sobre seus hobbies ou de dois irmãos brincando juntos, o pretendente consiga superar pré-conceitos sobre a idade ou a composição familiar.
Segurança e ética em primeiro lugar
Embora a tecnologia facilite o encontro, o rigor jurídico permanece o mesmo. A inclusão de qualquer perfil no aplicativo depende de uma autorização judicial expressa. Existe um compromisso ético inegociável com a preservação da identidade e do sigilo das informações. O aplicativo não é uma vitrine pública, mas um ambiente seguro de aproximação.
O lançamento do A.Dot marca uma nova etapa na política nacional de adoção. Ao aproximar histórias e reduzir distâncias geográficas, permitindo que uma família do Sul adote uma criança do Norte com mais facilidade, o sistema brasileiro tenta garantir que o direito à convivência familiar seja, de fato, para todos, independentemente da idade ou condição de saúde.