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Desigualdade

Silêncio em sala de aula: 50% dos alunos não veem o debate antirracista nas escolas

Estudo inédito revela que metade dos estudantes brasileiros não percebe debates antirracistas na escola, expondo falhas na aplicação de leis históricas e curriculares.

26 mai 2026 - 08h41 Joice Gomes   atualizado às 08h43
Silêncio em sala de aula: 50% dos alunos não veem o debate antirracista nas escolas Pesquisa aponta que 50% dos alunos do ensino médio e fundamental não reconhecem debates sobre desigualdade racial em sala de aula. (Imagem: gerado por IA)

Vinte anos após a sanção das leis que tornaram obrigatório o ensino da história e cultura africana, afro-brasileira e indígena no currículo nacional, a realidade dentro das salas de aula ainda está longe de refletir a diversidade do país. Um estudo inédito, divulgado nesta terça-feira (26), revela um dado alarmante: cerca de 50% dos estudantes do 9º ano do ensino fundamental e do 3º ano do ensino médio afirmam não reconhecer o debate sobre desigualdades raciais no ambiente escolar.

O levantamento, intitulado “Desigualdade racial na Educação Básica: a percepção de estudantes e professores”, foi elaborado a partir de dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) 2023. O trabalho é fruto de uma parceria estratégica entre o Núcleo de Pesquisa Afro do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), o Instituto Alana e o Instituto Geledés. O que os números expõem é um verdadeiro "apagão" perceptivo: embora a lei exista no papel, ela ainda não se transformou em uma experiência pedagógica consolidada para metade dos jovens brasileiros.

O abismo entre o discurso docente e a percepção do aluno

Um dos pontos mais sensíveis da pesquisa é o descompasso gritante entre o que os professores afirmam realizar e o que os alunos efetivamente recebem. Segundo os dados, 81,6% dos docentes do ensino fundamental dizem abordar as desigualdades raciais “muitas vezes” ou “sempre”. No entanto, menos da metade dos estudantes (46,6%) confirma essa prática em sala de aula. No ensino médio, o cenário se repete com proporções semelhantes.

Para pesquisadores, esse fenômeno sugere que muitos educadores podem estar tratando o tema de forma periférica ou episódica, sem integrá-lo de fato ao conteúdo programático. Quando o debate se resume apenas a datas comemorativas, como o Dia da Consciência Negra, ele falha em construir uma consciência crítica contínua e integrada. "A legislação existe, mas sua aplicação ocorre de forma heterogênea e ainda marcada por limitações estruturais", explica a pesquisadora Eliane Firmino, do Cebrap.

Rede privada apresenta maior resistência ao tema

O estudo também joga luz sobre a disparidade entre as redes de ensino. A percepção de ausência do debate racial é significativamente maior nas escolas particulares. Nelas, 60,8% dos alunos de ensino médio sentem falta dessa discussão, contra 51,9% na rede pública. Especialistas apontam que as instituições privadas, embora submetidas à mesma legislação, costumam ser menos fiscalizadas e sofrem menos pressão para adaptar seus currículos.

Flávia Rios, socióloga e professora da USP, destaca que a implementação das leis 10.639/03 e 11.645/08 tem sido irregular e depende excessivamente de iniciativas isoladas de algumas secretarias ou gestores. "Não conseguimos universalizar a aplicação dessa legislação nem garantir uma consistência transdisciplinar que permeie todas as matérias, da literatura à matemática", avalia a socióloga.

Vozes da realidade: O impacto na formação dos jovens

Para as famílias, os números do Saeb apenas dão forma estatística a uma frustração cotidiana. A advogada Karina Berardo, mãe de dois filhos negros, observa que o tema costuma ganhar um viés mais positivo apenas no ensino médio, mas que, no fundamental, a figura do negro ainda é apresentada de forma caricata ou estritamente ligada à escravidão. "É raro ver a proposta com a perspectiva da contribuição do negro para a formação do país", desabafa.

A servidora pública Juliana Couto compartilha da mesma visão. Com filhas que já foram vítimas de preconceito no ambiente escolar, ela defende que a mudança real depende da diversificação do corpo docente. "A presença de mais professores negros é uma semente de longo prazo. Minhas filhas vivem uma realidade diferente da minha juventude, onde sequer se falava sobre isso, mas ainda há um longo caminho", afirma.

Caminhos para a mudança

O relatório final da pesquisa não apenas aponta falhas, mas sugere caminhos urgentes para governos e instituições. A principal recomendação é o fortalecimento da formação continuada de professores e equipes gestoras. Além disso, entidades como o Instituto Geledés reforçam a necessidade de monitoramento constante e material didático que fuja do óbvio.

A educação antirracista, reforçam os especialistas, não é uma pauta exclusiva para estudantes negros, mas uma formação cidadã essencial para todos os grupos sociais. O desafio para os próximos anos é transformar o que é obrigação legal em prática pedagógica orgânica, garantindo que o Brasil reconheça, dentro da sala de aula, a complexidade e a riqueza de sua própria identidade.

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